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André Veríssimo averissimo@negocios.pt 02 de Dezembro de 2013 às 09:35

Cheira a sushi

Num cenário de inflação baixa, os investidores continuarão a ser impelidos a investir em activos de risco.

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"I Think I'm Turning Japanese", cantava a banda inglesa The Vapours nos anos 80. A música retrata a angústia da transformação em alguém que não se reconhece após a juventude: "Acho que estou a ficar japonês", dizia o vocalista David Fenton. O refrão serviu recentemente de inspiração para o título de um relatório económico de um banco de investimento sobre a perspectiva de manutenção da inflação em níveis historicamente baixos na Zona Euro, conjugada com níveis também baixos de crescimento.


A nota evocava o pesadelo económico vivido pelo Japão a partir dos anos 90, caracterizado por vários períodos de deflação. As piadas à Zona Euro não ficaram por aqui. Outro banco titulava "Cheira a Sushi".


A taxa de inflação homóloga de 0,7% registada nos 17 Estados-membros em Outubro fez soar os alarmes. E levou o Banco Central Europeu a realizar um corte surpreendente na taxa de referência para o financiamento aos bancos, descendo-a de 0,5% para 0,25%.


Níveis baixos de inflação e de taxas de juro são uma boa notícia para quem paga um crédito indexado às taxas de mercado, como as Euribor. E para os investidores, que conseguem mais facilmente remunerações acima da inflação. Conseguir um retorno real marca a diferença entre ver o ganho da poupança ser engolido pela subida dos preços ou conseguir um aumento do poder de compra. Recorde-se que em Portugal a taxa de inflação registou uma variação homóloga negativa de 0,2% no mês passado.


Daqui para a frente há três cenários possíveis. A inflação mantém-se em níveis muito baixos, o nível de preços começa a aumentar a um ritmo mais saudável ou, pelo contrário, a Zona Euro cai na deflação.


Na primeira hipótese, a mais provável segundo os economistas, os investidores continuarão a ser impelidos para aplicar as poupanças em activos que proporcionem rendibilidades mais altas. Leia-se, assumir mais risco, investindo em acções e obrigações com "rating" mais especulativo.


Há também economistas que consideram que a inflação irá acabar por subir nos próximos anos, fruto da injecção maciça de liquidez por parte dos bancos centrais. Para quem acredita neste cenário, este é o momento de comprar, a preços baixos, obrigações que protegem contra a inflação. Além de pagarem um cupão idêntico à subida dos preços, irão valorizar. Mas atenção que se acontecer o inverso, há risco de perdas.


A deflação caracteriza-se por um período prolongado de queda generalizada dos preços, que conduz ao adiamento das decisões de compra pelas famílias. Porque esperam comprar mais barato no futuro deixam de consumir bens duradouros no presente. A economia mergulha na recessão e com ela os rendimentos das famílias. Esperemos nunca ter de provar o sushi.

 

 

averissimo@negocios.pt

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