Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
André Veríssimo averissimo@negocios.pt 11 de Maio de 2015 às 10:06

Fica o alerta

Os mercados foram sacudidos na semana passada por uma súbita subida das taxas implícitas das obrigações na Europa.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 4
  • ...

 

Os mercados foram sacudidos na semana passada por uma súbita subida das taxas implícitas das obrigações na Europa. Um abanão capaz de abalar convicções sobre a eficácia do curativo aplicado pelo BCE para sarar a economia do euro. É improvável que o mercado esteja a virar. Mas fica o alerta: tal como não há mal que nunca acabe, não há bem que sempre dure.


A taxa de rendibilidade implícita ("yield") das obrigações alemãs atingiu no dia 20 de Abril o mínimo histórico de 0,05%. Desde então assomou uma pressão vendedora, que atirou para baixo os preços dos títulos, com a correspondente subida dos juros. Na quinta-feira, dia marcado por uma volatilidade raramente vista, as "bunds" a dez anos saltaram 21 pontos base para os 0,77% (o nível mais elevado desde Novembro) acabando por recuar na mesma medida até ao fecho da sessão.


O movimento nas "bunds" arrastou o resto do mercado, em particular as taxas de juro na periferia: as "yields" de Portugal subiram quase um ponto percentual regressando à casa dos 2,5%. Pelo meio, tombaram acções, o euro cedeu, o ouro resplandeceu.


As explicações para o sucedido abundam. Difícil é dizer qual a correcta. Há quem sustente que houve uma aposta na queda das obrigações alemãs por grandes investidores institucionais americanos, desencadeada por um "twitt" de Bill Gross: "German 10yr Bunds = The short of a lifetime", escreveu o homem que ostenta o cognome de "rei das obrigações", no dia 21 de Abril. Que é como quem diz: o preço não pode subir mais, só cair. E caiu.


O disparo nas "yields" terá ocorrido ainda porque a subida da cotação do petróleo (40% desde o mínimo em Janeiro) fez crescer as expectativas sobre um nível mais elevado de inflação, negativo para as obrigações. Porque o BCE, como antes a Fed ou o Banco de Inglaterra, pôs todos os investidores a negociar para o mesmo lado: compradores e longos nas obrigações. Porque alguns acharam que era hora de encaixar mais-valias. Porque o mercado obrigacionista tem, por estes dias, pouca liquidez. Porque a queda rápida dos preços desencadeou vendas forçadas nos sistemas informatizados de negociação.


"Seja qual for a explicação exacta para os movimentos observados nos mercados, eles representam um alerta para o facto de algumas das forças que ajudaram a alimentar a modesta recuperação na economia da Zona Erro nos meses mais recentes puderem afinal ser temporárias", observa a Capital Economics num relatório divulgado na sexta-feira.


As bolsas recuperaram, as "yields" corrigiram um pouco, a inflação está em 0% e a BCE está activo no mercado. Mas o episódio da semana passada mostra que uma subida das taxas directoras pela Fed, uma saída da Grécia do euro ou a vontade dos investidores em testar a determinação do BCE podem rebentar a tão propalada "bolha" nas obrigações de dívida soberana. E com isso retirar o oxigénio de que se alimenta a retoma na região.

 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias