André  Veríssimo
André Veríssimo 11 de novembro de 2016 às 00:01

O alter ego presidencial de Trump

Numa eleição de desfecho imprevisto, uma das surpresas foi a reacção dos mercados à vitória de Trump. Em vez do antecipado descalabro, tivemos acções a subir, da Europa aos EUA, onde o Dow Jones atingiu mesmo um novo recorde.
O discurso de vitória, conciliador e moderado, em contraste com a campanha, foi uma das razões apontadas para o ânimo dos investidores. Como se Trump Presidente fosse um alter ego do Trump candidato.

Há uma dose desta reacção que tem que ver com a incorporação nas cotações do programa económico de Trump, que vai desde uma ampla descida de impostos a um não menos amplo programa de investimento em infra-estruturas. Da banca à indústria, há várias empresas que têm muito a ganhar.

Há outra parte da reacção que passa pela expectativa de que Trump não fará metade das atrocidades que andou a prometer. Foi o primeiro discurso, conciliador. Depois a primeira conversa com Obama, apaziguadora. O Financial Times conta que os conselheiros do novo inquilino da Casa Branca trabalharam no sentido de passar a mensagem de que Mike Pence, o tipo credível e com experiência política da nova dupla presidencial, terá um papel central na escolha da nova equipa e nas negociações com o Congresso. No New York Times, apoiantes próximos do Presidente eleito asseguram que algumas propostas não devem ser levadas à letra.

Vai o Presidente passar uma esponja sobre o que o candidato andou a prometer? Estudos mostram que os partidos e os candidatos com agendas mais radicais, uma vez assumindo funções governativas, tendem a ter uma actuação mais moderada.

Haverá promessas que Trump dirá que não cumpriu porque não o deixaram. Outras deixará cair, ou porque nunca acreditou nelas, ou porque alguém lhe mostrará o caminho do bom senso. Por exemplo, impor tarifas elevadas às importações chinesas iria virar-se contra as próprias multinacionais americanas, que veriam os seus custos ou o preço dos produtos disparar. Quanto passaria a custar um iPhone? Noutros casos ainda, Trump usará as promessas para ter alavancagem em negociações. Nunca romperá com a NATO, mas pode exigir outras contrapartidas.

Trump Presidente será um logro para quem nele votou? Para a maioria não, se a sua receita orçamental para impulsionar a economia – que está até alinhada com o que anda a pedir o FMI – der frutos suficientes. Mas será suficiente para a direita mais conservadora? Será que assistiremos a nova metamorfose mais à frente?

Trump pode até estar mais contido, mas não deixou de ser alguém com valores e uma moral distorcida, que preza o culto da personalidade e se considera inimputável. Esta súbita mudança de estilo acentua aliás a imprevisibilidade da personagem e da sua actuação. Quem veremos num momento de crise? O Presidente ou o candidato? 

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