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André Veríssimo - Diretor averissimo@negocios.pt 16 de Novembro de 2016 às 00:01

O PIB na superlua

A economia portuguesa deu um pulo no terceiro trimestre, muito acima do esperado pelos economistas. O que é de saudar, como fez, naturalmente, o Governo. Mas da mesma maneira que uma andorinha não faz a Primavera, um bom trio de meses não nos transforma no tigre ibérico.

Os números revelados ontem são bons, há que salientar. Basta ver que desde o final de 2013 que o PIB não crescia em cadeia tanto como entre Julho e Setembro. Os 0,8%, medidos pela estimativa rápida do INE, correspondem ao ritmo mais elevado da Zona Euro. Vale a pena demorar o olhar sobre o quadro do Eurostat, que é infelizmente coisa rara, ao nível da superlua, mas que deve orgulhar-nos.

O crescimento homólogo deu também um salto considerável, de 1,6%. Aí já ficamos atrás de países como a Alemanha, a Holanda ou Espanha. Mas não deixa de ser um número muito positivo que ficou, inclusivamente, muito acima das previsões dos economistas. O desacerto fica a dever-se, segundo o INE e os mesmos economistas, a um crescimento mais robusto do que o esperado das exportações de bens e serviços, com destaque para o turismo. E a um consumo interno mais centrado nos bens não duradouros, que "carregam" menos as importações. Sobre o investimento só teremos notícias daqui a duas semanas, mas ao não merecer uma observação do INE fica a ideia de que o panorama não se terá alterado de forma significativa. Veremos.

O Governo rejubilou, como lhe compete. O ministro Vieira da Silva falou de uma "significativa recuperação da economia portuguesa". "É esta a mudança de rumo que pretendíamos para a economia portuguesa", assinalou o ministro Mário Centeno. O ministro Caldeira Cabral diz mesmo que a meta de 1,2% para este ano pode ser superada. O primeiro-ministro acrescenta que os números "excedem sobretudo as expectativas de quem durante todo o ano andou a fazer previsões catastróficas".

Convém pôr o "oficial optimismo" um pouco em perspectiva. Primeiro foi o Governo que andou a prometer um crescimento de 2,2%, que depois baixou para 1,8% e finalmente para 1,2%. Mesmo que o PIB cresça 1,3% ou 1,4%, estará a igualar o ritmo de 2015.

A diferença substancial está na aceleração. Os números mostram que as exportadoras e o sector do turismo estão a fazer bem o seu trabalho. Mas dificilmente o cenário irá repetir-se no último trimestre. Se o Governo não se intrometer, é bom. Melhor seria que ajudasse a tornar ainda mais competitiva a economia portuguesa, mas não se vê que isso seja uma prioridade. Ora, sem uma estratégia clara nesse sentido, e sem investimento, este tipo de desempenho no quadro da Zona Euro continuará a ocorrer com a cadência de certos fenómenos astronómicos. 

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