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André Veríssimo averissimo@negocios.pt 20 de Outubro de 2014 às 09:42

O petróleo que mais ordena

A revolução do gás e do petróleo de xisto está também a revolucionar o xadrez geopolítico.

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Para lá dos ganhos e perdas financeiras nas bolsas, da descida da gasolina na bomba, ou do impacto nos lucros de petrolíferas ou companhias de aviação, a queda vertiginosa da cotação do petróleo é o prenúncio de uma nova ordem mundial.


Habituámo-nos à ideia de que a energia não voltaria a ser barata. É improvável que volte a ser. Mas até há poucos anos ninguém arriscaria a reputação antecipando os valores por que anda actualmente a cotação: pouco mais de 80 dólares por barril. Foi a revolução do gás e do petróleo de xisto, nos EUA, que alterou o paradigma. O país tornou-se este ano o maior produtor de petróleo do mundo, depois de atingir a mesma posição cimeira no gás natural em 2010. O que significa que é também auto-suficiente, passando de importador a exportador.


A revolução do xisto está também a revolucionar o xadrez geopolítico. A OPEP, que há décadas controla a banda de flutuação dos preços mexendo nas quotas de produção, está a perder poder. Começam a surgir sinais de fractura dentro da organização, com a Arábia Saudita a decidir no início do mês baixar os seus preços de venda para segurar a quota mundial. A menor dependência dos produtores do Médio Oriente significa também que os Estados Unidos se podem abster de um papel tão interventivo na região. Só o combate ao terrorismo o justifica. É agora a China, o maior consumidor de petróleo do mundo, a quem mais interessa que os conflitos locais não desestabilizem os preços internacionais da energia.


A revista Foreign Affairs publicou na edição de Março/Abril um artigo, com o título "A vantagem energética da América", onde se lê que "a consequência geopolítica mais séria do boom energético na América do Norte é (...) a possível desestabilização da cotação global do petróleo, que pode cair 20% ou mais". Já desceu 25% desde Junho, pressionado pela combinação entre aumento da oferta e travagem no crescimento da procura global.


Esta descida dos preços ameaça o crescimento nos principais produtores e compromete o seu equilíbrio orçamental. A manter-se este nível de preços, a Rússia poderá entrar em recessão e o governo ser, além disso, forçado a aumentar impostos, ateando o descontentamento na população. A já muito debilitada economia venezuelana poderá não conseguir escapar a um "default" na dívida. Há mais países sob pressão: Indonésia, Colômbia, Angola, Irão, Iraque ou Arábia Saudita, só para citar alguns. O mal de uns é o bem de outros. Os países importadores de energia, como Portugal, saem a ganhar . 

 

 

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