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Perdas perpétuas

Os investidores portugueses foram vítimas de vários logros nos últimos anos. O BPP e o BPN foram amplamente falados. Mas pouca gente, além dos prejudicados, prestou atenção ao prejuízo que BCP e BES provocaram aos aforradores.

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Os investidores portugueses foram vítimas de vários logros nos últimos anos. O BPP e o BPN foram amplamente falados. Mas pouca gente, além dos prejudicados, prestou atenção ao prejuízo que BCP e BES provocaram aos aforradores.

Entre 2009 e 2010 os dois bancos venderam na sua rede comercial valores mobiliários perpétuos subordinados: títulos de dívida, que para as instituições tinham a vantagem de fortalecer os rácios de capital. Convencidos de que estavam a fazer uma aplicação com capital garantido, os incautos investidores foram seduzidos pelos juros elevados que eram pagos no primeiro ano (bem mais altos que nos depósitos) e a expectativa de serem reembolsados ao fim de cinco. Expectativa, porque, como o nome indica, a devolução do dinheiro poderia ser adiada "ad eternum", enquanto o banco dele necessitasse.

No ano passado, pressionados por diferentes exigências de capital, os bancos propuseram aos clientes que trocassem as obrigações perpétuas por acções. Por cada mil euros investidos, o BCP entregou em Junho 1600 acções, com um preço de emissão equivalente a mil euros. Quase todos os aforradores aceitaram, até porque, caso quisessem levantar o investimento antes do reembolso, também perderiam dinheiro: os títulos perpétuos valiam menos 20% no mercado. Mas talvez não imaginassem que a emenda seria pior do que o soneto. A queda da cotação do BCP transformou os mil euros em 228. Uma perda superior a 75%.

O BES fez o mesmo em Novembro, numa operação mais sofisticada. Em troca de mil euros em valores perpétuos oferecia 800 em acções e 200 em obrigações de caixa. Também aqui a queda das cotações penaliza os investidores. A componente accionista vale agora cerca de 600 euros. O que dá uma perda total de 20%.

Para recuperarem as poupanças, os clientes do BES têm de esperar que as acções subam 33%. Os do BCP 337%. Muitos, perante a queda do preço das acções, já as terão vendido, tornando perpétuas perdas que nunca imaginaram, quando o gestor de conta lhes propôs a aplicação.

Cegos pela necessidade de reforçar o capital, os bancos sacrificaram a confiança dos clientes. Não dos clientes institucionais, que sabiam ao que iam, nem dos pequenos investidores temerários. Mas daqueles que, vítimas da sua iliteracia financeira, seguiram o conselho que lhes foi dado ao balcão. A estes, nem os supervisores, CMVM e Banco de Portugal, lhes valeram. O caso merece que se reflicta sobre a real eficácia da legislação na protecção dos consumidores de produtos financeiros.

*Editor de Mercados
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