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Repressão financeira

Se alguém lhe falar em repressão financeira, por certo achará que o tópico da conversa diz respeito à enorme dose de austeridade imposta pelo Governo nos últimos anos.

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Se alguém lhe falar em repressão financeira, por certo achará que o tópico da conversa diz respeito à enorme dose de austeridade imposta pelo Governo nos últimos anos. Mas há outra, que se soma a esta, infligida pelos bancos centrais.


O termo repressão financeira foi introduzido em 1973 pelos economistas americanos Edward Shaw e Ronnald McKinnon, e diz respeito à adopção de políticas públicas destinadas a reduzir o custo de financiamento do Estado e o seu nível de endividamento. Nos últimos anos, esse objectivo tem sido cumprido através de políticas monetárias destinadas a criar um ambiente de taxas de juro reais muito baixas ou mesmo negativas. Isto porque a inflação gerada baixa o valor real da dívida. Como? Imagine que emprestou 100 ao Estado. Se passados dois anos o nível de preços tiver subido 10%, o Estado devolve-lhe os mesmos 100, mas eles só valem 90.


Porquê repressão? Porque este tipo de política de juros baixos reduz de forma considerável a remuneração das poupanças das famílias e cria inflação, diminuindo o seu poder de compra. Em Portugal a repressão é ligeira, porque praticamente não existe inflação. As estimativas do Banco de Portugal apontam este ano para zero. O que significa que mesmo as magras taxas que os bancos pagam agora nos depósitos, a rondar os 1,5%, proporcionam um retorno real positivo. A verdade é que as poupanças rendem agora menos. O que se soma à quebra de rendimento provocada pelo aumento da carga fiscal.


Esta repressão manifesta-se ainda na forma como os mercados estão capturados pela política monetária, com os investidores forçados a procurar activos de elevado risco, face à rendibilidade baixíssima dos activos sem risco. Até agora com bons resultados, é certo. Mas até quando?


Nem a toda poderosa banca escapa aos efeitos deste regime absolutista. As taxas de juro muito baixas reprimem a margem financeira dos bancos comerciais, atingindo-os na sua principal fonte de proveitos. A baixa volatilidade tira lucros à banca de investimento.


Saiba que este é também um dos motivos por que a Alemanha não quer o BCE a desbravar o admirável mundo novo da política monetária não convencional, o chamado "quantitive easing". Havendo inflação, os países da periferia vêem diminuir o peso da sua dívida. Já os cidadãos alemães perdem poder de compra. Uma transferência de riqueza do Norte para o Sul, que Berlim não aceita. 

 

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