André  Veríssimo
André Veríssimo 04 de janeiro de 2017 às 00:01

Um país ainda "distressed"

Ainda não chegámos aos Reis e já tivemos uma amostra do que o ano nos reserva. Bastou a inflação na Alemanha sair bem acima das expectativas para os juros de Portugal chegarem quase aos 4%. Apertemos pois os cintos, porque a viagem vai ser agitada.

Primeiro foi a política de estímulos orçamentais de Trump a puxar pelos juros das obrigações dos Estados Unidos e a contaminar a Europa, devido às expectativas de aumento da inflação. Agora são os preços a arrebitar deste lado do Atlântico, com a inflação na Alemanha a subir 1,7%, bem mais do que esperavam os analistas (1,4%) e perto do que o BCE considera ser o objectivo da sua política monetária.

 

Se a inflação se aproxima do objectivo, faz pouco sentido manter uma política monetária que usa recursos muito além do convencional para pôr os preços a subir. É o que dirá Berlim, que a um ritmo intenso vem martelando sobre Frankfurt para que comece a inverter a política monetária, nomeadamente tirando as taxas de referência do grau zero (nos empréstimos) e negativo (nos depósitos). E a razão é simples: os alemães estão cansados de ver as poupanças, com que contam para dourar a reforma, render "bola" nos bancos e fora deles. Se, por cima, ainda vem a inflação comê-las...

 

Portugal, pela enorme dívida que carrega, é o país que mais tem a perder com mudanças de rumo do BCE, que no novo programa de compra de activos foi já menos generoso do que o desejável. Isso voltou a ver-se ontem nos mercados, com a taxa de juro a 10 anos de Portugal a chegar aos 3,9% e a percepção de risco, medida pela diferença para a Alemanha, a atingir os 3,6 pontos percentuais, o nível mais alto em quase um ano.

 

Não  vale a pena chamar já o diabo. O BCE olha é para a inflação na Zona Euro, conhecida hoje, e que deverá andar pouco acima de 1%. Além disso, os dados de Dezembro são influenciados pelo aumento dos bens energéticos (cortesia da OPEP), efeito que se esbaterá nos meses seguintes.

O episódio serve sobretudo para lembrar como Portugal, mesmo com toda a estabilidade social e política, continua a ser um país "distressed", cujas perspectivas abanam perante qualquer "stress".

 

E que por isso só consegue atrair para comprar os seus bancos fundos especializados em activos "distressed", que exigem perspectivas de rentabilidade elevadas e protegidas por garantias.

Esta aparência de que tudo vai bem, porque os rendimentos parece que voltaram ao que eram, pode iludir em alguns um estado de confiança. Mas esse é um verniz fino, num ano com muitos ferros capazes de o estalar, que começam na política monetária e passam pelas eleições em países-chave da Europa.

 

O Presidente da República resolveu ser mais exigente com o Governo e na mensagem de Ano Novo afirmou que Portugal tem de "crescer muito mais". Por muito que ande pelo país a espalhar esperança e confiança, Marcelo sabe que o país só vai lá com outro ritmo. E isso exige reformas que este Governo dificilmente fará. 

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