André  Veríssimo
André Veríssimo 13 de maio de 2018 às 19:20

Uma OPA política

Seria estranho que a administração considerasse hostil uma oferta de um accionista que é parceiro há seis anos, mas seria incompreensível que não dissesse que ela avalia mal o valor da empresa e o seu potencial, cumprindo o seu dever de representar todos os accionistas.

Há uma certeza na OPA da China Three Gorges – vai demorar longos meses –, uma quase certeza – o preço oferecido terá de subir – e uma grande incógnita: conseguir luz verde política e regulamentar em oito países diferentes.

A motivação. Tudo aponta para um ataque preventivo. A EDP é uma "utility" de média dimensão, com um negócio apetecível na energia renovável em países interessantes, e portanto um alvo de cobiça. A China Three Gorges (CTG) avança para impedir que outros o façam. Como escreveu Sun Tzu a "arte suprema da guerra é derrotar o inimigo sem lutar". Se o vai conseguir, o tempo dirá.

A atitude é reveladora da importância estratégica que a China dá à Energia, nomeadamente à renovável, onde, como na fóssil, quer ter uma posição dominante. A EDP proporciona, além do mais, a presença em geografias determinantes, desde logo os EUA onde a eléctrica portuguesa é a quarta maior na produção eólica. Salta à vista o contraste entre a importância que os chineses dão à propriedade destes activos e aquela que em Portugal se pratica.

Conseguir 50% mais uma acção, a condição de sucesso da OPA, é o suficiente para os objectivos da CTG, que quer manter a empresa dispersa no mercado.

O preço. Pode dizer-se que é ofensivamente baixo. É verdade que a CTG precisa de convencer apenas 27% do capital a vender-lhe as acções – pressupondo que consegue fazer aprovar a desblindagem de estatutos na assembleia geral – mas a contrapartida só pode ser entendida como um primeiro valor.

O prémio oferecido é insignificante face à última sessão e fica até abaixo do que os chineses pagaram em 2011, na última fase de privatização. O múltiplo oferecido, de 2,98 vezes o EBITDA, também compara mal com outras operações. Seria estranho que a administração considerasse hostil uma oferta de um accionista que é parceiro há seis anos, mas seria incompreensível que não dissesse que ela avalia mal o valor da empresa e o seu potencial, cumprindo o seu dever de representar todos os accionistas.

A política. Dinheiro não será o principal problema para a CTG, é na vertente política que se jogará o desenlace. Em Portugal, o primeiro-ministro veio num afã – antes até do anúncio na CMVM – dizer que nada tem a opor. Mas as pretensões políticas do Estado chinês chocam com as da Europa e dos EUA. A operação não será bem vista em alguns círculos europeus, como na Alemanha, onde há preocupação legítima com a venda aos chineses de activos estratégicos, para mais sem que exista reciprocidade. A América de Trump trava uma batalha comercial com Pequim e o investimento estrangeiro chinês é assunto sensível e de segurança nacional.

O absurdo de uma empresa que era do Estado português e de um sector estratégico poder acabar nas mãos do Estado chinês será o grande tema da OPA. Mas esse comboio partiu em 2011 com a venda das últimas acções e o fim da "golden share". A possibilidade de a China controlar o capital de grande parte da produção, da distribuição em alta tensão (REN) e em baixa tensão dá certamente que pensar. Resta-nos confiar na regulação.
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