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O preço da incompetência

O relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o sétimo exame da troika é assustador. É assustador porque o FMI insiste na tecla dos cortes.

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1. O relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o sétimo exame da troika é assustador. É assustador porque o FMI insiste na tecla dos cortes, por exemplo, nas indemnizações por despedimento ou nos salários dos privados, ao mesmo tempo que reconhece a ausência de efeitos nas reformas feitas em Portugal e admite uma flexibilização do défice. Isto é, a receita não funciona, mas o FMI acredita nela, insistindo em medidas que só vão aprofundar a recessão em Portugal. 


2. Outra constatação estranha nestas avaliações é a de que Portugal parece ser tratado como uma experiência laboratorial, expurgando-se da equação as variáveis externas que influenciam o programa de ajustamento. A começar pela retracção da economia europeia, determinante para a evolução mais ou menos favorável das exportações nacionais. Depois, o FMI advinha perspectivas "sombrias" para Portugal e admite riscos resultantes de um consenso social político que está "significativamente fraco", mas candidamente continua a insistir que o país percorra o mesmo caminho estreito que conduziu até aqui.

3. Esta actuação do FMI traz à memória o livro de Christine Kerdellant, "O Preço da Incompetência", onde são apontados alguns dos maiores erros de gestão da história. Um deles foi protagonizado pelo presidente da Kodak, que na década de 30 se desembaraçou do inventor da Polaroid, Edwin Land, com o argumento de que as pessoas não tinham pressa em ver as suas fotografias. Kerdellant conclui: "Os maiores erros de gestão são pecados por omissão. São oportunidades que não se souberam agarrar."

4. O programa de ajustamento de Portugal arrisca-se seriamente a entrar na categoria das "oportunidades que não se souberam agarrar". Por parte do Governo, que foi incapaz de promover uma autêntica reforma do Estado quando a deveria ter feito, logo no início do mandato, e se condenou ao uso de cortes avulsos ou medidas extraordinárias que erradamente apresenta como reformas. E por parte da troika, concretamente do FMI, que se refugia em modelos e insiste em manter-se num estado de negação, quando confrontado perante os falhanços. O preço a pagar por esta incompetência será muito alto. Mas, tristemente, o estado das coisas só deverá mudar quando a Europa perceber que Portugal, Grécia e Irlanda são apenas minudências neste período decisivo para a história futura do "Velho Continente".

PS: Em Espanha, Mariano Rajoy (líder do PP e chefe do Governo) e Alfredo Rubacalba (líder do PSOE) puseram-se de acordo e vão juntos a Bruxelas para exigir medidas como o desenvolvimento de investimentos na União Europeia, mais apoios às PME ou o fim da fragmentação do mercado financeiro europeu. Será que Passos Coelho e António José Seguro vão tirar alguma lição a partir daqui?

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