André  Veríssimo
André Veríssimo 01 de janeiro de 2018 às 23:00

2018 promete

A incerteza, interna e externa, não desapareceu, ainda é uma das palavras mais apontadas para definir o que será 2018. Mas também o são "crescimento", "esperança" e "oportunidade". A que se impõe é, no entanto, "desafiante".

O Negócios publica há 9 anos um inquérito a líderes empresariais, mas também de outros sectores, onde se aferem as perspectivas e riscos para o ano seguinte. Além das conclusões estatísticas que se podem retirar, o exercício é um bom barómetro do estado de espírito com que uma parte relevante da elite nacional olha para os 12 meses que aí vêm.

O que vêem desta feita é diferente do ano anterior, para melhor. Se na visão sobre o que seria 2017 a incerteza era a pauta para a maioria das opiniões, em relação a 2018 há outro substantivo que se afirma: confiança. Optimismo, positivo, são outras palavras usadas com frequência pelos 116 líderes que aceitaram este desafio.

Este ânimo não surpreende. Portugal atravessa o melhor período de crescimento da década, o turismo e o imobiliário vão continuar em alta, o défice e a dívida descem, os custos de financiamento caíram de mais de 4% no início de 2017 para menos de 1,8%, o Governo parece reunir condições para chegar sem percalços ao fim da legislatura. 2018 será um ano de consolidação – outra palavra muito usada – do que vem de 2017. Tem tudo para ser, nesta frente, um ano magnificamente chato.

Este optimismo vem também do esbatimento de velhos receios. Já quase ninguém teme a fragmentação da Zona Euro e uma crise bancária deixou de ser preocupação em Portugal. Outro sinal de confiança está no facto de o aumento da rentabilidade do negócio ser agora a principal prioridade dos empresários; até aqui era a procura por uma alternativa nos mercados externos.

A incerteza, interna e externa, não desapareceu, ainda é uma das palavras mais apontadas para definir o que será 2018. Mas também o são "crescimento", "esperança" e "oportunidade". A que se impõe é, no entanto, "desafiante".

Porque apanhar a boleia do crescimento é um desafio. Mas também porque há riscos que subsistem. Ainda que acreditem na capacidade do Governo para cumprir a meta do défice, o descontrolo das contas públicas é agora o risco mais apontado.

A confiança encerra a ameaça da excessiva auto-confiança, da complacência. Um luxo a que o país não se pode dar. Alfredo Cuevas, o chefe de missão do FMI, deixou num artigo de opinião publicado no Negócios elogios ao progresso conseguido por Portugal. Mas também um aviso: "A actual fase cíclica de expansão irá abrandar, tanto em Portugal como nos seus parceiros comerciais. Apesar de o contexto externo não ser algo que Portugal possa controlar, o país pode definir o ritmo da redução dos seus de­sequilíbrios e vulnerabilidades através das suas próprias medidas". São essas medidas, que passam pela criação de amortecedores orçamentais mais fortes e reformas que aumentem a produtividade, que podem garantir que a confiança no crescimento continuará a ser um sentimento preponderante.


A reinvenção de Portugal, de que ontem falava o Presidente da República na mensagem de Ano Novo, também passa por aí.