André  Veríssimo
André Veríssimo 06 de março de 2018 às 23:00

A guerra em que todos perdem

Donald Trump resolveu dar os primeiros tiros da sua guerra comercial. Para já, são pólvora seca. Havendo fogo real, terá consequências, e não são boas para ninguém. Pode ser que os deuses que Trump mais teme acabem por o demover.

O anúncio presidencial da intenção de aplicar uma tarifa de 25% na importação de aço e de 10% no alumínio, para todos os países, foi acompanhado da habitual propaganda na rede social preferida de Trump. "Quando um país está a perder muitos milhares de milhões de dólares no comércio com virtualmente todos os países com quem faz negócio, as guerras comerciais fazem sentido e são fáceis de ganhar", dizia o "tweet". E acrescentava: "Por exemplo, quando temos um saldo negativo de 100 mil milhões de dólares com um determinado país e eles se armam em engraçados, acabamos com esse comércio – nós ganhamos imenso, é fácil".

Não, não é assim tão fácil. Se a indústria americana importa aço e alumínio é porque fazê-lo é competitivo e, portanto, mais rentável para as empresas. As tarifas poderão ajudar a produção local destas matérias-primas, mas penalizarão o negócio, e por essa via o emprego, das empresas que as usam para produzir outros produtos. Ou seja, a economia americana não sai necessariamente a ganhar, pelo contrário.

Numa guerra comercial todos perdem. Desde logo porque há sempre a possibilidade de retaliar, como a União Europeia já ameaçou fazer. E outros também farão. O resultado será uma travagem do comércio global e com ele da economia.

Uma coisa é  dizer que "só insistindo num comércio justo e recíproco podemos criar um sistema que funciona não só para os Estados Unidos, mas para todas as nações", como foi Trump dizer a Davos. Nem todos o fazem de forma justa e recíproca, como é o caso da China, por exemplo, no aço e alumínio. Outra coisa é impor medidas gerais e unilaterais de proteccionismo, como foi anunciado no final da semana passada.

Na verdade, o que Trump e parte da sua "entourage" defendem é um sistema que funciona apenas para o seu país e empobrecerá todos. "O olho por olho vai deixar-nos a todos cegos e o mundo numa recessão profunda", alertava esta semana Roberto Azevêdo, presidente da Organização Mundial de Comércio.

O Partido Republicano tem tentado pôr água no fervor proteccionista de Trump, veremos com que eficácia. Neste momento parece haver apenas uma entidade capaz de demover o Presidente norte-americano: os mercados financeiros e os seus receios
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