Pedro Santos Guerreiro
Pedro Santos Guerreiro 01 de abril de 2012 às 23:30

A OPA do corno manso

As OPA já não são o que eram: os negócios já só são abertos depois de fechados. A Cimpor será partida entre brasileiros, com o alto patrocínio daquela que mais jurou impedi-lo, a prestimosa Caixa. Foi bem mandada pelo Governo.
As OPA já não são o que eram: os negócios agora só são abertos depois de fechados. A Cimpor será partida entre brasileiros, com o alto patrocínio daquela que mais jurou impedi-lo, a prestimosa Caixa. Foi bem mandada pelo Governo. Os liberais, os ufanos defensores do jogo livre - Passos, Gaspar e Borges -, revelam-se afinal vorazes manipuladores: fecharam eles o negócio com a Camargo. Um bocadinho sonso, este bom aluno.

A OPA da Camargo Corrêa à Cimpor já está decidida. A venda assumida pela CGD e o aparente alinhamento com a Votorantim condicionam os demais accionistas. Os grandes, claro; os pequenos investidores são chicha. Vai-se a Cimpor. Às postas.

O destino está na verdade traçado há mais de dois anos. Quando a brasileira CSN lançou uma OPA, apareceram dois grupos brasileiros: a Camargo, que comprou a participação da Teixeira Duarte e lançou uma OPA encapotada através de uma fusão, o que a CMVM felizmente inviabilizou; e a Votorantim, que comprou à Lafarge e matou tudo com um acordo com a Caixa, de quem se tornou sócia. Nessa altura, aqui foi escrito o que tudo parecia: que a Camargo e a Votorantim tinham avançado sobre a Cimpor para impedir a CSN de se tornar concorrente no mercado brasileiro que ambas dividem; e que a Camargo e a Votorantim mais tarde concluiriam o processo desmantelando a Cimpor. Não foi preciso ser bruxo.

A Cimpor vai à vida. Num lamento português de mais de dez anos, a empresa andou de OPA em OPA até chegar a esta triste divisão, abocanhada por concorrentes. Culpa? Dos seus accionistas, que se enfeudaram numa luta de poder que teve os mesmos vícios da luta de poder do BCP. É natural, as pessoas eram as mesmas: Teixeira Duarte, Manuel Fino, o próprio BCP, a Caixa. Mas a Caixa…

A Caixa é um caso perdido. Foi a Caixa que matou a OPA da CSN, para proteger o Centro de Decisão Nacional, que agora entrega de bandeja. É sempre essa historieta dos centros de decisão que serve de borracha para todos os erros. Mas explique lá a lógica da batata: há dois anos, a Caixa não quis vender a Cimpor na OPA a 6,18 euros por acção (a Teixeira Duarte venderia a 6,5 euros; a Lafarge trocaria activos sob uma avaliação a 6,5 euros); há meses, o banco do Estado disse que só o faria a 6,5 euros. E agora vende a 5,5 euros. Hum… Não faz muito sentido, pois não?

Faz se for traduzido: a Caixa é o cavaleiro branco de Passos Coelho, o testa de ferro de Vítor Gaspar, o carro vassoura de António Borges. Idólatras da "mão invisível", adoptaram um conceito conveniente: a "mão que manda invisivelmente". Foram oportunistas à primeira oportunidade. E assim se fechou um acordo entre Finanças, Camargo e supõe-se que Votorantim. A decisão "do accionista" é um vexame tão grande para a administração da Caixa (que obedece, vende baratinho e até abdica de 200 milhões do contrato que tinha com a Votorantim) que de uma vez por todas se devia assumir que a Caixa não é um banco, é mesmo uma extensão do Ministério das Finanças, um pau mandado do Governo. E acaba-se com a conversa de treta da governança, da independência, do banco de mercado. É mais honesto assumi-lo: quando é preciso, a Caixa é um recreio do Governo.

Vítor Gaspar não é burro, é inteligente. Se fechou o negócio com a Camargo nestes moldes e deu dois berros à Caixa para assiná-lo, é porque há contrapartidas que desconhecemos. Provavelmente, para outras privatizações, como a TAP e a Ana. Depois da privatização da EDP, em que se acordou em segredo manter contratos de subsidiação à produção (afirmando antes que não se faria), o Governo continua a fazer negócios com empresas cotadas e bancos públicos atrás de nebulosas cortinas.

Há dois anos, aqui se chamou à oferta da CSN sobre a Cimpor a OPA do táxi: os quatro accionistas que decidiriam o sucesso da oferta caberiam no mesmo automóvel. Agora é ainda mais simples. É a OPA da mota: o Governo conduz, a Caixa vai no "side-car". A Caixa é o "corno manso" desta história: foi usada, é enganada (deixando cair, já agora, Manuel Fino), e ainda aparece na festa a rir. Confirma-se: Gaspar é o maior.


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