Raul Vaz
Raul Vaz 21 de novembro de 2016 às 00:01

As longas férias do Senhor Diabo

A frase, lapidar e marcante, ficou: "Gozem bem as férias porque em Setembro vem aí o diabo". Quem a disse? Pedro Passos Coelho aos parlamentares do PSD, em Julho, num momento em que muitas questões estavam em aberto: as eleições americanas, por exemplo. E, sobretudo, que Orçamento teríamos para 2017 e qual a postura das agências de 'rating', nomeadamente a da DBRS.
Setembro veio e foi, quente, num esticar do Verão que se estendeu a Outubro. Mas, tirando a fogueira permanente do caso Caixa, os termómetros políticos estiveram amenos, sem sinais do tal diabo que estaria prestes a chegar às nossas portas.

Enquanto a ameaça rondava, António Costa, com os seus (cada vez menos) improváveis parceiros de geringonça, fez um Orçamento do Estado que conseguiu agradar à esquerda e a Bruxelas. Mais, conseguiu o feito de elaborar um documento que consolida sem medidas de austeridade evidentes (elas estão lá, mas bem disfarçadas).

Bruxelas fez o que lhe competia, simulou reticências para depois dar um entusiasmado aval, e as agências de 'rating' ficaram sem grandes argumentos para esgrimir a teoria do caos. E, cereja em cima do bolo, chegaram os dados do crescimento económico no terceiro trimestre, uma porta fechada com estrondo no focinho do demo.

Houve falhas, é claro, com o banco público à cabeça , num processo tão canhestro que até parece ser de propósito. Mas até aqui, no sistema financeiro, Costa e Centeno continuam com créditos: o BPI resolveu-se, o BCP também, o Novo Banco está em vias de o conseguir. Comparando com o legado de Passos Coelho e Maria Luís nesta área não está mal de todo.

O diabo não emigrou, continua à espreita. É ver o que se passa com os juros da dívida pública, após o terramoto Trump. Não é só a nossa, é verdade, mas a situação portuguesa é necessariamente mais frágil, pelo ponto de partida e por tudo aquilo que falta fazer em termos de sustentabilidade e competitividade da economia.

Quanto ao tal diabo, que vinha depois das férias, está em parte incerta. Tal como na história de Pedro e do lobo, cada dia que passa sem a chegada do dito é uma derrota para a tese política inamovível de Passos Coelho: de que não havia alternativa ao seu rumo, e que qualquer tentativa provaria um inevitável desastre.

Pedro Passos Coelho é um patriota e não deseja certamente qualquer mal a este país. Mas, em termos de sobrevivência política, não é de estranhar que qualquer dia o vejamos na Portela, na área das chegadas, a ver se o diabo interrompe finalmente as suas intermináveis férias de Verão. 

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