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Raul Vaz raulvaz@negocios.pt 24 de Fevereiro de 2017 às 00:01

Com deus e com o diabo

O PS, pela voz de João Galamba, pensa que ninguém no seu estado pleno de responsabilidade pode desconhecer o que quer que seja. Isto é: mentir é politicamente aceitável, desconhecer uma operação no âmbito da administração pública, nunca.

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Durou uma semana a contenção do lado Galamba da coisa (entenda-se a coisa como a geringonça). O porta-voz socialista voltou para, a propósito dos 10 mil milhões colocados entre 2011 e 2015 em offshores, dizer que o pior que existe num responsável político é dizer que desconhecia a operação.

Estamos, está Galamba, a falar de um assunto sério. Porque se for verdade que o Governo de direita foi cúmplice voluntário numa fuga ao Fisco na operação em causa, os envolvidos na tramóia deveriam ser criminalmente responsabilizados.

Não é, de facto, aceitável que um governo pactue com alçapões fiscais, muito menos numa operação offshore. Sendo ela legal, exige pela sua excepcionalidade um maior controlo. Mais: sendo esse movimento feito num período em que, como é o caso, se obriga o contribuinte comum a um esforço suplementar, pior é a leitura de um eventual erro.

Sobre esta matéria e sua evolução, fica a insinuação do primeiro-ministro no Parlamento. Não fica bem a António Costa, mas faz parte do seu jogo. Costa não aprecia Galamba mas não prescinde da sua costela caceteira – que serve de escudo ao outro lado da coisa.

O escândalo do offshore surgiu na sequência de um outro escândalo: o modo e a forma como o Governo negociou com o anterior presidente da Caixa. É simples de entender a coincidência que – mesmo tratando-se de uma casualidade – veio amaciar o confronto político criado pelo correio electrónico entre o ministro das Finanças e o presidente do banco (com mentiras pelo meio?) e pela ruptura na comissão de inquérito à Caixa.

Ignorar estes factos é um tremendo erro político. Em que começou a cair o Presidente da República. Aquilo que Marcelo defende, e bem, para o caldo social – a descrispação entre partes – deve ser enquadrado no universo político. E não se trata de um cotejo de apreço entre elites e povo. Aí, Marcelo terá sempre ganhos: ele é a elite, ele é o povo.

O problema está na vontade presidencial em estender ao quadro político a sua genuína idiossincrasia. Não é, simplesmente, possível equilibrar a crispação entre as partes quando se aceita ouvir as queixas de um dos lados e, simultaneamente, se aconchega, mesmo que num plano institucional, a outra parte.

Marcelo comete um erro ao publicitar um encontro com Ferro Rodrigues na véspera de ouvir Assunção Cristas. Há espargatas que apenas servem para acentuar o desequilíbrio. E servem a quem não hesita, mesmo sem apreço, em usar o lado Galamba da coisa.

O Parlamento está crispado, se calhar como teria de estar. Um lado rasga as vestes e exige do outro o que, para si, considera desnecessário e injusto exigir. Perante isto, Marcelo tem duas vias possíveis: ou se afasta e deixa os partidos funcionar; ou exerce o seu poder calmante, mas na penumbra e no silêncio. Mais do que isso, é contribuir para o ruído. 

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