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Sérgio Figueiredo 17 de Dezembro de 2004 às 13:59

Contra a adesão turca

A adesão da Turquia à União Europeia é uma construção artificial. Não haveria qualquer problema nisso, se não fosse uma mistificação politicamente correcta. Só conta com um apoiante entusiasta e inequívoco: os Estados Unidos. Deveria ser suficiente para f

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Com frases ocas e frases de circunstância - «momento histórico». Sem grandes explicações nem fundamentos.

Sucede que a adesão é demasiado complexa para tantas certezas. Nos partidos portugueses há consenso. Cheira a ligeireza. A Turquia quer entrar e os EUA querem que a Turquia entre. A Europa inventa desculpas para a receber.

A primeira é ser um Estado laico. Ou seja, exige-se da Turquia o que não se pede a nenhum dos países europeus. A Europa não é laica e a Irlanda, a Áustria e o próprio Reino Unido provam isso.

Ouvem-se outros argumentos. Que assim se evita o confronto civilizacional entre o Islão e o Ocidente. Que ajuda a resolver a decadência demográfica europeia, com mão-de-obra barata a financiar mais uma geração de reformados.

Também se evocam causas históricas: a presença turca na Europa é secular, logo a Turquia moldou a cultura europeia. Acrescentam-se razões geoestratégicas: a Turquia integra o Conselho da Europa e é sobretudo membro da NATO.

Quem não adere a esta apologia, quem não a aceita, apanha com um rótulo certo: é racista. Fugindo à principal das discussões: a Turquia não é um país europeu.

O império turco estendeu-se, de facto e por séculos, ao centro da Europa. Mas também teve presença nos países árabes e por muito mais tempo. A Turquia não vai aderir à Liga Árabe. Até porque os árabes detestam os turcos e por razões conhecidas e justificadas.

Assim é de equacionar o confronto de civilizações com o Islão. O Islão não é uniforme. O Islão turco sempre foi outra coisa, distinta do Islão árabe. Integrar a Turquia afasta árabes e persas. Por outras razões, também afasta a Rússia da União.

A questão demográfica também é complicada. E não é preciso ver a Turquia como país da UE para perceber isso, pois basta lembrar as dificuldades étnicas, sociais e religiosas que a França enfrenta para integrar 6% da população árabe. Será que a Europa conseguirá, dentro de duas décadas, absorver 25% de população turca? Não sabemos.

As razões geoestratégicas, ou são ridículas, ou autoanulam-se. É ridículo, por exemplo, aceitar o Canadá na UE só porque é um país da Nato. Tal como seria estranho expulsar a Irlanda da União porque não pertence à Aliança Militar. E anulam-se a si próprias, por serem exactamente essas as motivações do EUA para verem a Turquia na UE.

A política dos EUA na Turquia é simples: financia militares e políticos. Os apoios sociais e o esforço de coesão, com menor «payback», que fiquem para a União.

E a política dos EUA para a Europa é conhecida: evitar a união política e a unidade económica. Isso é conseguido com a diluição da nossa identidade cultural e étnica. A Turquia, com 5% de europeus, serve na perfeição.

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