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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 16 de Janeiro de 2012 às 23:30

De Angola, com amor

Miguel Relvas foi a Luanda. Não para estar num programa de televisão, mas para liderar uma embaixada de charme. O "Prós e Contras" de ontem foi mais que um debate, foi um encontro em directo entre dois Estados. Isto sim é diplomacia activa. É melhor que pastéis de nata.

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Miguel Relvas foi a Luanda. Não para estar num programa de televisão, mas para liderar uma embaixada de charme. O "Prós e Contras" de ontem foi mais que um debate, foi um encontro em directo entre dois Estados. Isto sim é diplomacia activa. É melhor que pastéis de nata.

Depois de uma semana "horribilis", o Governo passou do estado de graça para o estado de desgraça sem passar pelo benefício da dúvida. O dano produzido pelas nomeações da EDP e (bem mais graves) da Águas de Portugal é talvez irrecuperável: a virgindade só se perde, nunca se ganha. Mas os grandes problemas tornam-se ridículos ao pé das catástrofes, como uma dor de cabeça desaparece se se parte uma perna. As nomeações são graves porque revoltam, mas a perna está a partir-se noutro lado. Não nos ecrãs de TV, mas nos monitores dos mercados.

O problema maior de Portugal é bem maior que Portugal. É a União Monetária, é a provável saída da Grécia do euro, é o risco de descontrolo posterior, é o corte de "rating", é as taxas de juro terem ontem disparado mais trezentos pontos (!), é a paragem cardíaca da economia, é a falta de receita fiscal - é a falta de dinheiro, de dinheiro vivo para pagar dívidas, contas, salários, importações. Por isso se vendeu a EDP depressa e bem, por isso se tenta aviar a REN enquanto há tempo, por isso se acolhem chineses, se visitam colombianos, se entronizam angolanos, se assediam brasileiros, se desejam russos, árabes e omanenses.

Portugal precisa de dinheiro, Angola de poder. O poder está na banca e na comunicação social e é precisamente aí que o investimento angolano está agora a crescer. Os desenvolvimentos que se esperam no BCP, por exemplo, poderão prová-lo. Na própria RTP (e na Cofina, proprietária deste jornal) também. Até porque os activos portugueses, empresas ou imobiliários, ficaram baratos e estão hipotecados.

Nada do que se está a passar em Portugal é, no entanto, alheio ao que se passa em Angola. Os problemas de transparência são permanentes e os atrasos nos pagamentos em Angola têm paridade com o preço do barril de petróleo. Mesmo com o crude a escalar com a crise no Estreito de Ormuz há empresas portuguesas aflitas. Basta ver o caso da maior construtora de Viana do Castelo, que hoje noticiamos: o gestor de insolvência denuncia a falta de contas na participada angolana.

Angola vive uma situação social que está controlada pelo Governo mas que é instável. Os ventos de libertação da Primavera Árabe sopram nos arrabaldes de Luanda, onde há acesso à Internet ou onde há ânsia de democracia. E a sucessão de José Eduardo dos Santos é um tabu por resolver dentro da própria nomenclatura dominante.

Para estar em Angola é preciso estar com o parceiro certo. A presença de Miguel Relvas em Luanda pareceu querer demonstrar uma espécie de chancela de aprovação pública face ao Governo angolano, mas Angola não se fez representar pela primeira divisão (Carlos Feijó era esperado mas não apareceu na RTP; Zeinal Bava, que mal falou, estaria bem ao lado de Manuel Vicente, ou mesmo da sua sócia Isabel dos Santos).

A aflição portuguesa fez-nos sair atrás de dinheiro. Partimos criando Planos A para a debilidade portuguesa e Planos B para a Europa. Partimos porque nos tornámos lúcidos e pragmáticos. Mas é um paradoxo que, não crendo já num D. Sebastião, partamos com a pressa espavorida que tanto nos pode levar à Nova Luanda, Maputo ou São Paulo - como a uma nova Alcácer-Quibir.



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