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Sérgio Figueiredo 15 de Março de 2006 às 13:59

Duas dúvidas numa OPA

Só uma coisa fica absolutamente clara na OPA lançada pelo BCP sobre o BPI: a conquista da liderança do sector financeiro nacional. Sobra um mar de dúvidas. Duas são decisivas. Uma que se coloca antes da operação se concretizar. Outra depois de ela avançar

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Paulo Teixeira Pinto, em conversa ontem com o Jornal de Negócios, reconheceu que é elevada a probabilidade de a OPA falhar. Parte importante desse risco está além-fronteiras. Será novamente testado o sistema de alianças ibérico. É algo normal em duas economias em acelerada integração. Neste caso, o grau de sofisticação é invulgar.

O que vai fazer o La Caixa? – é, provavelmente, a dúvida original, aquela que se resolve na primeira derivada da equação.

O La Caixa é o accionista mais relevante do BPI. Não é o maior, mas é o que manda mais. E, em Espanha, além de ser a grande caixa de aforro, funciona como braço financeiro do Estado catalão.

Há grupos económicos que nasceram do nada e em vinte anos tornaram-se um campeão nacional da Catalunha (caso da Repsol) sob impulso do la Caixa. Se há uma operação de grande dimensão (como a OPA da Gas Natural à Endesa) ela assenta sobretudo no peso do La Caixa.

A afirmação económica da região passa pela La Caixa. Tal como o destino do Sabadell, o maior banco catalão, onde La Caixa é o accionista institucional de referência, com uma posição de 13%.

Não deve ser obra do destino, mas o facto é que esta OPA do BCP coloca aparentemente o Sabadell e o La Caixa em pólos opostos. Porque o Sabadell é um dos grandes accionistas do BCP (3%), está no conselho do BCP e, garante Teixeira Pinto, é aliado do BCP nesta OPA sobre o BPI.

O que vai fazer o La Caixa? Reagir? OPA concorrente? Improvável. Por limitações regulatórias espanholas, teria de comprar 100% do BPI.

A resposta só pode ser uma de duas: passa pelo tapete púrpura estendido por Teixeira Pinto, celebra o acordo de paz e fica com 10% do líder português; em alternativa, compra a guerra e força o Sabadell. Ou fica com o jovem amigo português, ou com o irmão catalão. Será difícil adivinhar?

A outra dúvida alcança o futuro do próprio BCP. Que, não esconde, procura ganhar dimensão.

Ultrapassar, como lhe chama PTP, a «linha da vida». Ou seja, superar uma capitalização bolsista de 10 mil milhões, que a compra do BPI mais do que lhe garante à partida.

E não ficará por aqui, pelos 13 mil milhões. No imediato, passa a 15 mil milhões. E, em três anos, multiplicar por dois e meio a actual dimensão do banco. Chegar aos 20 mil milhões. Ficar, portanto, inacessível a qualquer aquisição hostil.

Ambição não falta. O risco de fracassar também não. Ao lançar-se ao BPI, está paradoxalmente a dizer ao mercado que também ele não é inviolável. Tem até menos armas de defesa, pois o núcleo duro do BPI existe e o do BCP nem pacto tem.

A OPA afirmou outra coisa clara: o novo líder. Quem lembra Jardim Gonçalves nestes dias? Quem corre riscos óbvios? Quem está consciente deles? Errar o tiro não é o pior dos cenários. O tiro pode sair pela culatra e atingir o próprio caçador. Porque dispara, então, este homem prudente? Não morrer como «sitting-duck», é a única explicação.

As duas dúvidas desta OPA acabam, afinal, numa interrogação: o que tinha ele a perder?

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