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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 09 de Setembro de 2008 às 13:00

Fannie & Freddie ou Bonnie & Clyde?

Deve o Estado salvar empresas que, por seu exclusivo demérito e má gestão, estão a falir? Não, vinte vezes não. Nem aqui, nem na China. Mas ainda ontem um país nacionalizou dois colossos empresariais à beira do colapso. Onde se fez tamanho ataque ao capitalismo de mercado? Na proteccionista França? Na governamentalizada Itália? Na comunista Coreia do Norte? Não: foi nos Estados Unidos. O mundo está ao contrário.

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Sim, foi nos Estados Unidos, esse perigoso país liberal que promove o mérito individual e a desestatização da economia, onde o indivíduo come o que mata, "terra dos livres, lar dos bravos", que o governo tomou posse da Fannie Mae e da Freddie Mac, dois fundos que representam metade das hipotecas do país. Ou uma concentração de células malignas, agente activo na criação da crise do "subprime", que comprava créditos à habitação de má qualidade aos bancos e depois os exportava através de securitizações e de produtos derivados que, de permeio, escondiam o risco da operação.

Um ano de "subprime" depois, sobejava um enorme buraco, as acções destes fundos perderam 99% do que chegaram a valer e o governo americano justifica-se com o facto de não estar a proteger os accionistas, pois estes perdem todo o seu dinheiro. Mas para não deixar que a crise contamine o resto do sistema, o Estado protege o infractor e vai ter de injectar muito capital (fala-se em 200 mil milhões de dólares) e cobrir as hipotecas que não sejam pagas. Numa frase: nacionalizou-se o buraco que será pago pelos impostos dos americanos.

Esta decisão abre um precedente grande, planetário. Nem Espanha, que tem fama de proteger as suas empresas, assim fez para o Fadesa. Zapatero não acudiu a quem lhe pedia ajuda e deixou cair a maior imobiliária do país, deixando um enorme rasto de dívidas atrás. Nos difíceis tempos que vive a banca portuguesa, o que fará o ministro das Finanças se lhe baterem à porta?

Os críticos do capitalismo, da globalização, do liberalismo e de outros conceitos que são demasiadas vezes confundidos devem estar a rebolar de contentamento. Porque isto aconteceu. Porque aconteceu nos EUA.

Os Estados Unidos intervieram por uma razão: porque entenderam que não havia alternativa ou não quiseram assumir a responsabilidade dessa alternativa, levar os fundos à bancarrota. A Administração de Bush crê que, assim, conteve uma crise que, de outro modo, arrastaria todo o mercado de crédito, todo o mercado imobiliário, talvez todo o sistema financeiro para um longa caminhada de vários anos num túnel muito escuro. Já em Fevereiro, em Inglaterra (outro farol da economia de mercado...), o colapso de um banco, o Northern Rock, trouxe a nacionalização. Tanto o Banco de Inglaterra como o secretário de Estado do Tesouro americano começaram por repudiar a hipótese, verberando que os erros têm de ser pagos por quem os comete. Ambos acabaram a pagar o erro dos outros. Sucumbiram à inevitabilidade: o sistema financeiro é diferente, as suas crises tornam-se crises dos outros, que acabam por pagá-las de uma forma ou de outra.

Esta nacionalização é um dia negro na economia e nos mercados, que, por ironia, entraram em euforia, aplaudindo a Administração Bush. Os investidores foram socialistas por um dia, assim como serão comunistas no outro se isso lhes der lucro ou evite prejuízo. Um mal nunca vem só. Este veio demasiado acompanhado.

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