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Sérgio Figueiredo 20 de Abril de 2005 às 13:59

Fé e economia

O cardeal Ratzinger era, evidentemente, o candidato favorito dos conservadores. O alemão foi o principal ideólogo do wojtylismo. O pontificado de João Paulo II deve-lhe muito. Para o bem e para o mal. O mais natural será, portanto, ver a Igreja entrar num

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Será, seguramente, mais dogmático, mais intransigente na defesa da tradição e do centralismo.

Aguarda-se, portanto, com expectativa a forma como o novo Papa vai responder aos novos problemas criados pela globalização económica.

João Paulo II enfrentou o comunismo. Bento XVI tem no capitalismo o seu «puzzle» mais difícil de resolver. A nova ordem transferiu da política para a economia as questões mais sensíveis das relações internacionais.

Estão em transformação os equilíbrios entre países opressores e oprimidos. Os ricos, que só receavam os imigrantes, agora também não querem os produtos que eles fazem, com os capitais que as suas multinacionais lá investem.

Quem sempre explorou reage agora por estar a ser explorado. E a entrada da China, pela dimensão gigantesca, acelera a velocidade dessa transformação. E das reacções. De governos. De empresários. Os economistas, como sempre, têm uma explicação.

A Igreja, que não entrou ainda neste debate, também não se pode esquivar dele. A relação entre o Terceiro Mundo e o Primeiro Mundo é um assunto a que Bento XVI terá de dar atenção. E apontar caminhos.

Hoje, os termos de troca evoluem ao contrário dos tempos em que Celso Furtado denunciava as injustiças do comércio internacional. O Norte das tecnologias e do capital já não consegue esmagar os preços das matérias-primas do Sul.

É o Sul que consegue inflacionar os preços internacionais das matérias-primas que ali são produzidas. E, como se não bastasse, ainda fica com o capital e a tecnologia do Norte.

O tema da pobreza é inseparável desta inversão do sentido das relações económicas internacionais. E a Igreja não pode continuar a falar de «capitalismo selvagem», quando são os pobres que supostamente prosperam à custa dos ricos?

Mas deverá a Igreja incentivar a protecção dos empregos de europeus e americanos, exortando os políticos a regressar ao proteccionismo?

Poderá, em nome do «fair trade» e da concorrência com regras iguais, estimular uma «ordem» em que, novamente, os miseráveis da Índia, do México ou do Paquistão percam o acesso aos nossos mercados?

E como pode a Igreja pugnar pelo desenvolvimento sustentável das economias da OCDE, enquanto contemporiza com as agressões ambientais e sociais que suportam os baixos custos das exportações do Terceiro Mundo?

Pela cultura que tem, pelo conhecimento que tem do mundo, pela forma como influenciou as doutrinas que João Paulo II defendeu, ninguém espera que Ratzinger protagonize uma mudança de 180 graus na Igreja. Mas vai ter de encarar problemas diferentes. Não se lhe pede a solução. Apenas doutrina. Não é pouco.

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