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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 05 de Abril de 2011 às 09:08

Game over: perdemos, senhor engenheiro

Ontem houve duas entrevistas na TV. Numa, a verdade; na outra, a fantasia.

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Santos Ferreira, na TVI, deu em dez minutos um banho de realidade a Portugal. José Sócrates, na RTP, deu uma hora de banhada. O primeiro-ministro descolou da realidade, zarpou para dentro de um cubo caleidoscópico onde só ecoa a sua voz. Vê-se e dá pena. Pena de nós.

O piano não tem mais escalas graves para a situação. Estamos a ficar sem dinheiro. Sem dinheiro. A queda do Governo foi o haraquíri sem honra que aniquilou as exíguas hipóteses. É preciso comer cogumelos mágicos para achar que agora Portugal escapa sem ajuda externa.

Senhor primeiro-ministro: falhámos. Perdemos o jogo. Andámos meses a lutar contra a intervenção externa, acreditámos nisso, defendemo-lo, quase conseguimos. No final, perdemos. Demitir o Governo foi como calçar luvas de boxe para jogar mikado. Criminoso. Fatal. Imperdoável. "O interesse nacional foi sacrificado ao mais mesquinho interesse partidário", disse o senhor ontem. Nem mais. E há dez milhões de vítimas. Depois da crise insana, veio a chuva de descidas de "rating", a escalada dos juros, o escárnio externo para a nossa estupidez. Para a vossa estupidez.

Agora que falhámos, é preciso pedir ajuda. Não vale a pena subir esta escada rolante que desce. Como o Negócios hoje revela, são necessários 15 mil milhões até final de Junho. Muito mais do que se supunha: agora as empresas do Estado também estão na fila. E as autarquias. E se a coisa piora também estará a banca. Porque os "ratings" dos bancos estão a ser suportados pela Moody's, que ainda não os reviu. Mas se a indefinição dura, também este será cortado. E então tudo será pior. É por isso que, como também revelamos nesta edição, a banca portuguesa, que andou a servir de transmissão entre o Banco Central Europeu e o Estado, fechou a torneira à dívida pública portuguesa: ela tornou-se tóxica.

Esqueçamos as dezenas de milhares de milhões que temos em ouro, não as podemos vender. O nosso curso está traçado: é preciso um empréstimo intercalar pela Comissão Europeia, que será a calçadeira já para o pedido de ajuda ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira, que o novo Governo terá de fazer no Verão e que significará a intervenção externa da União Europeia coordenada com o FMI.

Para que isso aconteça, só há um obstáculo: a política. A Comissão Europeia entende que o Governo é que tem o poder para pedir essa ajuda, mas com o apoio expresso dos demais partidos que podem constituir Governo depois de Junho: PSD e PP. Isto terá de envolver o patrocínio do Presidente da República. Mas o único obstáculo é o Governo - e Sócrates não quer ficar com o ónus desse pedido. Se pudesse, pedia eu.

Este pedido de ajuda concertado entre PS, PSD, PP e Presidente tem a vantagem de descontaminar as eleições das promessas impossíveis. Ficará escrito aquilo a que o próximo Governo, seja qual for, está amarrado. Porque haverá um novo PEC - e será mais cruel.

Adiar o pedido de empréstimo é mergulhar o País na falta de dinheiro, salários em atraso, no medo das poupanças, na bancarrota, no incumprimento. Isso só acontecerá se formos governados por eunucos da política, habitantes da negação patológica. Até há dez dias, Sócrates era um resistente; agora é um desistente. Se não vê a realidade, será preciso interná-lo e fazer o que fizeram a Salazar, fingir que governa.

Portugal precisa de ajuda. É o fim de um sonho que afinal era pesadelo, mas não é o fim do mundo. Daqui a dias, os jacarandás florirão em Lisboa. Isso ninguém conseguirá estragar. Achamos nós.


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