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Sérgio Figueiredo 12 de Março de 2004 às 14:52

Guernica em Atocha

Se calhar, até foram as duas, e articuladas. A questão é que faz uma grande diferença, uma tremenda diferença para muita gente, se os autores do atentato em Atocha foram uns árabes de Bin Laden ou uns europeus branquinhos e louros do País Basco.

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Há muito que desapareceram as meias palavras, que se perdeu qualquer margem para a ambiguidade. Eles não são revolucionários, não são nacionalistas, não são bascos, não são separatistas, não são independentistas. Nem são palestinianos. Ou curdos. Não são sequer comparáveis aos irlandeses.

Não têm causas. Não olham a meios. Não se chocam com os traumas que provocam. Os biltres que mataram quase duzentos inocentes, e deixaram mais de mil e duzentos feridos, não são nada disto, porque não são gente. São uns sacanas, capazes de tudo e não merecem uma pinga de misericórdia.

Obviamente que o mais fácil é dizer que estes assassinos, estes terroristas responsáveis pela chacina em Madrid, são etarras. Aliás, não somos nós a dizê-lo. É o Governo, são os partidos espanhóis, são os da direita e são os da esquerda, são as forças nacionais e as autonómicas.

Não há provas. Mas o facto é que pode ter sido a ETA. Como pode ter sido a Al Qaeda. Podia ser uma organização ou outra, porque qualquer uma delas era capaz de ter feito o que se fez.

Se calhar, até foram as duas, e articuladas. A questão é que faz uma grande diferença, uma tremenda diferença para muita gente, se os autores do atentato em Atocha foram uns árabes de Bin Laden ou uns europeus branquinhos e louros do País Basco.

O número de mortos não se altera. A barbárie é a mesma. Mas, enquanto que primeiro caso toda a gente fica de consciência mais tranquila - quem disse no 11 de Setembro “somos todos americanos” pode agora dizer “somos todos espanhóis”....

Já no segundo caso, uns quantos que ficam com um nó no estâmago e pingas de sangue na alma. Não são terroristas. São apenas uns românticos cretinos, ou simplesmente cretinos, da nossa esquerda. Que, não faz ainda muito tempo, andava a promover vigilias nas ruas de Lisboa pela “causa” etarra.

É muita gente da nossa esquerda respeitável e até inteligente. Deputados da nossa nação, como Francisco Louçã. Ilustres portugueses, já ‘nobelmente’ galardoados, como José Saramago. Um classificou o atentado de “fascizante”. O outro condenou-o como “inadmissível”.

Ambos podem dizer que não há causas que justifiquem o terrorismo e defender que não há perdão para quem o pratica. Esta é uma irritante “frase feita”, um produto do “politicamente inócuo”.

Sim, mas, para esta esquerda anarca e absolutamente irresponsável que temos, o País Basco, a Palestina, o Ulster ou o Curdistão sempre tiveram razões para o “terrorismo aceitável”. Porque os povos estão oprimidos.

A Al Qaeda é o “terror intolerável”. A ETA é o “terror admissível”. Embora o País Basco não esteja ocupado por forças militares, nem o Estado espanhol realize respostas militares “tipo Israel”.

A Espanha tem graves problemas nacionais e o País Basco sempre foi o maior de todos. A cruel perversão disto é que ontem pode ter deixado de ter um: a ETA. Os bascos vão persegui-la.

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