Celso  Filipe
Celso Filipe 07 de março de 2018 às 23:00

Isto anda tudo ligado

“Uma coisa é dizer que ‘só insistindo num comércio justo e recíproco podemos criar um sistema que funciona não só para os Estados Unidos, mas para todas as nações’, como foi Trump dizer a Davos. Nem todos o fazem de forma justa e recíproca, como é o caso da China, por exemplo, no aço e alumínio. Outra coisa é impor medidas gerais e unilaterais de proteccionismo, como foi anunciado no final da semana passada”, escreveu ontem André Veríssimo neste espaço, a propósito da guerra comercial que o Presidente norte-americano promete abrir, começando pela aplicação de uma tarifa de 25% na importação de aço e de 10% no alumínio

Donald Trump é errático, mas isso não significa que tome atitudes ao acaso. Por isso, esta guerra deve também ser vista à luz de um realinhamento estratégico dos Estados Unidos, sendo que um dos vectores da mesma passa por um relacionamento mais distante com a China.

Washington até já encontrou um substituto, a Índia, com a qual quer firmar uma parceria global, estendendo-a, por exemplo, a África, para quebrar a crescente hegemonia de Pequim neste continente._Um sinal dessa aproximação ao regime indiano materializou-se no facto de os norte-americanos  terem travado uma ajuda financeira de dois mil milhões de dólares ao Paquistão.

Não é por acaso que aconteceu a mudança de poder na África do Sul (saiu Zuma, próximo da Rússia, entrou Ramaphosa, aliado dos Estados Unidos), o que faz parte de um quadro mais vasto, dado que o continente africano voltou a ser visto como estratégico, tanto para Washington como para Moscovo.

Como também não foi por acaso que a Coreia do Norte, próxima da China, veio admitir o congelamento do seu programa nuclear num período temporal coincidente com os primeiros sinais desta possível guerra comercial. A esta renda de bilros podem ainda juntar-se factores como a saída do Reino Unido da União Europeia, o que dá mais força aos EUA, ou a forma amigável como a Europa tem recebido investimento chinês.

É verdade que numa guerra comercial não há vencedores. Mas o comércio, neste caso, é apenas um dos componentes de uma guerra a partir da qual se pretende uma outra arquitectura global do poder. Os EUA querem apequenar o seu maior rival, a China, colocando um novo xis na equação, a Índia. Já a China pretende unir forças à União Europeia para desafiar Washington. E ainda há a Rússia, com uma agenda própria, que se empenha em fragilizar os EUA e a União Europeia. Os dados estão lançados.
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comentários mais recentes
jose 08.03.2018

Sr. Celso, finalmente um artigo com bom senso, sem se suportar nas meras fake news habituais.

Anónimo 08.03.2018

Excelente análise
Para quem não entende está aqui tudo
E como diz ,numa guerra comercial internacional , tudo é possível.
Mas os EUA estão a defender os seus interesses

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