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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 27 de Fevereiro de 2013 às 00:01

Keynes renascido

Quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita. Diz o povo e, esperemos, que no caso da crise no euro o endireitar seja mais para o tarde do que para o nunca. Mas que a crise parece interminável, com turbulências a cada nova fase de esperança que se abre, isso parece. Para Portugal, o que se está a passar em Itália pode estar a chegar na melhor altura se, e só se, tudo se resumir a mais um pequeno abalo, desta feita à italiana, que será rapidamente ultrapassado.

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Estamos todos a ganhar menos e mais inseguros com o que nos reserva o futuro. Muitos de nós perderam o emprego nestes quase dois anos de aplicação do programa de reequilíbrio financeiro. Alguns tiveram de procurar emprego fora do país. Todos, de forma mais ou menos dramática, chocamos com uma realidade que deixou de ser de prosperidade crescente feita de carros e casas.

Mas se cada um de nós recordar como estava o país e a Zona Euro no Verão do ano passado perceberá que temos hoje muito mais razões para esperar encontrar uma luz ao fundo do túnel do que nessa altura. Não é aquela luz que pensávamos que existiria no nosso futuro antes do sistema financeiro norte-americano e de alguns países europeus se terem revelado uns inomináveis monstros, criaturas que nos engoliram nesta crise. Mas hoje, mesmo que se considere que esta não é ainda a crise que vai disciplinar o sistema financeiro, temos mais razões para esperar tempos melhores do que há um ano.

Na Zona Euro abandonou-se a linguagem da culpa que, transformando um problema financeiro num problema moral atrasou um diagnóstico rigoroso e racional do problema e, como tal, das soluções que deveriam ser adoptadas. Foi assim que chegámos ao problema grego e é também assim que quer a Irlanda, como em especial Portugal, acaba por ter de dizer "obrigada Atenas" por não se terem insistido nos mesmos erros.

Chegados ao ponto a que chegámos, os especialistas que defenderam a aterragem brusca, o "front loading" ou o ajustamento rápido - três expressões que caracterizam o perfil de reequilíbrio subjacente nos programas desenhados pela troika - já perceberam que a terapia estabiliza financeiramente o país com alguns suplementos externos, a que chamaremos BCE, mas tem um custo com elevadas e arriscadas dimensões sociais e políticas. O desemprego está em níveis inimagináveis não só em Portugal, mas em boa parte dos países da Europa do Sul. E os cidadãos em geral dos países que estão no centro dos furacões financeiros, olham cada vez mais para as terapias defendidas pelas troikas como duvidosas. Os resultados eleitorais na Grécia e em Itália mostraram bem, com as devidas distâncias, o que pode acontecer às democracias quando se é indiferente à democracia.

A mudança do discurso europeu, agora salpicado pelas palavras investimento, crédito, emprego e crescimento pode ser, para alguns economistas, a fase natural que daria lugar à estabilização financeira. Talvez assim seja, na Europa como em Portugal. Mas esta inevitável estratégia de promoção da despesa, muito keynesiana, terá de actuar muito rapidamente. Infelizmente. Porque a rapidez que a conjuntura política e social começa a exigir é muito má conselheira.

Portugal já vai ter condições para aliviar a austeridade que antecipava a disciplina do Estado. O acesso aos mercados financeiros vai permitir ao governo de Pedro Passos Coelho reduzir o défice público mais devagar, ou seja, endividar-se mais. Assim vai fazer Portugal, como fará a Irlanda, como terá de acontecer com Espanha e com a Itália. Daqui a uns meses estaremos de novo a falar entusiasticamente em investimentos públicos. Reestruturar a oferta, a economia, leva demasiado tempo, dura mais que um ciclo eleitoral. Quando se quer ganhar eleições ou comprar a paz numa sociedade é sempre Keynes que renasce. Um espírito que ganha ainda mais força quando as terapias iniciais nasceram irracionais.

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