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Sérgio Figueiredo 29 de Março de 2006 às 13:59

Lula lá... e cá

A crise brasileira tem um significado para Portugal e para os portugueses que vai muito além dos 10% de exposição das nossas empresas cotadas àquele país. É de valores, e não de bolsa, a índole da crise brasileira. Porque é uma crise feita de traições. Lu

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O seu PT traiu a sua história, negou a sua própria razão de ser, enfiando-se num escabroso esquema de compra de votos de deputados e de financiamentos ilícitos. Igual aos outros.

As traições sucederam-se. Entre eles. Os camaradas e os novos amigos de circunstância – sim, o poder é o melhor terreno para cultivar este tipo de amizades. A última das traições aparece de onde menos era esperada. Ou, pelo menos, desejada.

Demitiu-se Antonio Palocci, o ministro das Finanças. O guardião do templo, o homem que durante 39 meses sustentou a credibilidade, externa e interna, da política económica de Lula. Aquele que, entre escândalos e «mensalões», corrupção e desilusões, mantinha acessa a luz da confiança. Não da esperança, porque essa Lula nunca foi capaz de resgatar.

Palocci cai por causa de um caseiro. Um humilde serviçal, de nome Francenildo, que teve a coragem de denunciar as mentiras e supostas negociatas do ex-ministro. Não foram estas, porém, as causas da demissão, mas o acto cobarde de o ministro ter perseguido o «seu» Francenildo, violando o sigilo bancário do caseiro.

A nossa relação com o Brasil não se resume a uma cotação no mercado de capitais. A crise brasileira é de outros valores. Como a nossa. Aliás, é lá, não cá, que um ministro cai por um motivo daqueles.

É no Brasil, não é em Portugal, que um todo-poderoso, além de hipotecar o seu futuro político, pode ter ainda de pagar judicialmente, porque deverá ser indiciado criminalmente pelo acesso indevido à conta bancária que o caseiro Francenildo tinha na, por si tutelada, Caixa Económica Federal.

Nenhum de nós está, portanto, em condições de dar uma lição de civismo aos brasileiros. Temos, pelo contrário, a obrigação de tirar ensinamentos que podem ser-nos muito úteis.

O primeiro: devemos desconfiar dos convertidos de última hora. O PT de Lula, mesmo na sua faceta mais confiável, não acredita no mercado, não aceita as suas regras. A sua conversão foi circunstancial.

Remete para o segundo: pode ser reversível. Ou seja, pode ter ficado rapidamente desactualizado aquilo que, ainda neste fim de semana, a revista «Veja» festejava como uma conquista das próximas presidenciais: a previsibilidade da política económica, o compromisso com a estabilidade e com a responsabilidade fiscal.

Terceiro ensinamento: para ser de esquerda não é preciso ser tolo, dizia FHC. Lula não foi tolo. Mas o seu processo reformador cedeu à esquerda dos tolos, aos fiéis do anacrónico.

A nova nomeação para as Finanças, essa tem, pelo menos, a vantagem de não enganar ninguém: Guido Mantega é daqueles que pensa que as taxas de juro devem ser fixadas por despacho ministerial. Não pelo Banco Central.

Foi este o «segredo» que pôs cobro a uma história de hiperinflação, afinal o maior dos impostos que os trabalhadores brasileiros jamais tiveram de suportar.

Adivinham-se complicados, os próximos meses no Brasil.

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