André  Veríssimo
André Veríssimo 16 de maio de 2018 às 23:00

Mãos limpas no futebol

Há uma cultura de violência no futebol em Portugal que vai da Liga dos Últimos aos maiores da Primeira Liga. Uma cultura que se vem agravando e grassa na impunidade de quem a instiga e na indiferença das entidades públicas. É toda uma pobreza de espírito que empobrece o desporto.

Há o contexto geral e os casos que o moldam. O do Sporting é o mais agudo. Bruno de Carvalho não está sozinho, mas é o expoente. É ele o instigador moral do ataque aos jogadores e à equipa técnica, o pai do monstro. Alcochete era um crime à espera de acontecer.

É incompreensível que Bruno de Carvalho possa manter-se no cargo depois do que aconteceu. Mais ainda que não surja um movimento para promover rapidamente a mudança. Por ser figura central na página mais negra da história de uma grande instituição como o Sporting , mas também pelo risco que os acontecimentos recentes implicam para a viabilidade financeira do clube. Os jogadores são o maior activo de uma SAD com capitais próprios frágeis e há agora dúvidas sobre se podem sair sem deixar um cêntimo nos cofres de Alvalade. A permanência ou não de Bruno de Carvalho pode fazer a diferença.

Como os homens, também as instituições não são eternas. Quando os líderes se confundem com as próprias instituições, aumenta o risco de estas caírem com eles. A instituição Sporting precisa de se autodefender. Está convocada uma assembleia-geral extraordinária que pode servir esse propósito.

As críticas de Bruno de Carvalho à falta de acção do Governo são uma tentativa de disfarçar as suas responsabilidades, mas são justas. Há um ano, um adepto italiano do Sporting morreu nas imediações do Estádio da Luz no que se suspeita ter sido um atropelamento intencional. Isto não é de ontem, nem só do Sporting. É do futebol português, que se junta à vergonha de outros. Responsabilidade daqueles que mandam no desporto – os dirigentes dos principais clubes – e da omissão dos responsáveis políticos que se dizem agora indignados.

À violência, soma-se a corrupção, endémica e transversal. Como aqui já se escreveu, tudo isto representa uma perda de valor para o desporto e os clubes. Ainda recentemente a Nos investiu numa campanha televisiva para limpar os ares e afirmar os  valores do desporto e do futebol. Depois de Alcochete, alguém acredita? As notícias de que a empresa ameaçava rescindir o acordo com o Sporting foram desmentidas, mas são reveladoras do que pode ser o impacto.

O selvagem ataque aos jogadores e equipa técnica do Sporting em Alcochete podia ser o grau zero do futebol português. Mas nada garante que outros degraus possam ser descidos. Enquanto não houver uma operação mãos limpas capaz de afastar aqueles que o estão a destruir, todos têm as mãos sujas.
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