Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 08 de Dezembro de 2011 às 23:30

Moeda ao ar

Angela Merkel, na solidão de um quarto de hotel, olha para uma moeda de €1 na palma da sua mão. A imagem é muito literal. O que vai acontecer à Europa vai acontecer a todos nós. E o que será, hoje? "Os acontecimentos podem passar do impossível ao inevitável sem pararem no provável".

  • Partilhar artigo
  • 5
  • ...
A frase de Alexis Tocqueville, escrita há mais de 150 anos, passa a comentário do dia. A cimeira europeia que hoje começa tem pouco para correr bem, excepto o desespero de que possa correr mal. O que era impossível pode passar a inevitável: ou mais Europa ou Europa nenhuma.

Seja a 27, a 17, a dois ou a sós, a chanceler alemã sabe que o tudo ou nada depende essencialmente de si. Isso não lhe é necessariamente desfavorável: se queria fazer o que queria, assim poderá fazê-lo agora. Nos 17 do euro, há um sobranceiro e 16 suplicantes - incluindo a França, que se alinhou debaixo da Alemanha para ficar na fotografia.

Nos 27 da União Europeia, contudo, não é assim. O Reino Unido está contra alterações na regulação financeira. Quer aproveitar a renegociação de tratados para exigir contrapartidas. Quer talvez excluir-se do processo de integração europeia e tornar-se numa grande Suíça da Europa. É bom para o negócio.

A cimeira começou na verdade ontem. Vestida de preto, Angela Merkel chegou depois de o Banco Central Europeu ter ido além do que se esperava mas ficado aquém do que se pedia. Num punhado de medidas, o BCE fez uma coisa e disse outra. O que fez foi ajudar os bancos, quer baixando o custo do dinheiro, quer aumentando a sua capacidade para mobilizarem liquidez. Assim foi para compensar medidas da reforço de capitais de que discordam. E para ser activo contra um 2012 que, afinal, será de recessão europeia.

Sim, ontem foi um bom dia para os bancos, designadamente os portugueses: têm crédito mais barato, podem eleger novos colaterais junto do BCE, têm menos exigências de reservas de liquidez e ganharam cedências a três anos. Além disso, a autoridade bancária europeia reduziu-lhes drasticamente as exigências de novo capital, com novas regras.

Mas, além do que fez, o BCE disse o que disse: que a UE não pode contar com ele para o que legalmente não o deixa fazer: emprestar dinheiro directamente aos Estados. Para Draghi, a ortodoxia está nos tratados da UE. Mudem-nos, se quiserem.

Esta posição do BCE é mais uma pressão para a cimeira de hoje. É quase impossível que o BCE possa ser o "tal credor de último recurso" - isso seria um sapo demasiado paquidérmico para a Alemanha engolir. Mas há um meio caminho: o BCE financiar o novo mecanismo de apoio, que por sua vez comprará dívida pública no mercado primário.

Esta é uma das grandes decisões que pode sair desta cimeira. Outra é o entendimento forte em matéria de disciplina orçamental: o mecanismo de sanções automáticas a quem falhar regras do euro, as aprovações por maiorias simples e qualificadas, a inscrição nas leis nacionais de regras e limites orçamentais, a criação do Conselho de Finanças Públicas.

Para que isto aconteça, há a questão formal. O caminho de mudar tratados tem demasiado risco, pela posição britânica. É possível que o caminho passe, por isso, não pela negociação a 27 mas pelos 17 do euro. Seja por acordos entre os países ou ao abrigo da cooperação reforçada - assim se fez Schengen.

O processo está a decorrer a um passo demasiado rápido para a profundidade das alterações. Por outro lado, a Comissão Europeia está completamente marginalizada, mesmo que algumas das "novas" propostas tenham sido suas. Por isso se receia que a Alemanha ganhe poder de mais nesta "nova Europa". Por isso se diz que antes isso que a explosão do euro.

A zona euro andou depressa de mais? Talvez não: talvez tenha andado devagar de mais. Os planos de agora são de mais integração, por mais impopular que, em cada nação, isso seja - e é.

Raymond Aron, um sociólogo que estudou Tocqueville, inventou a expressão "Guerra Fria" e então disse uma célebre frase: "Guerra improvável, paz impossível". A cimeira deste fim-de-semana acontece dentro desse enorme beco: a fragilidade levou à submissão da zona euro. Sem integração, só uma serendipidade evitaria o caos. Mas afinal, como diz Vítor Bento, expectativa é apenas o nome que os economistas dão à fé.
Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias