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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 14 de Setembro de 2010 às 11:44

No dia de São Nunca à tarde

Foi o dia de São Nunca à tarde. Vimos vacas a tossir, porcos a andar de bicicleta, galinhas com dentes e bancos a falir. Foi há dois anos: o Lehman Brothers ruiu. Outros depois dele. E nós? Já mudámos de vida? Não. Mas vamos mudar. Que Espírito Santo de Orelha nos lembre de o não esquecer. Ora veja...

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A banalização da crise, primeiro financeira, depois económica, agora ambas, relativizou a sua própria existência. Já não é um elefante no meio da sala, passou a fazer parte da mobília. Mas a crise existe. Na economia e na banca. Há uma semana, o sistema bancário irlandês colapsou (só ajudado não entrará em bancarrota). Dois anos depois do Lehman, a banca continua aflita.

Em Portugal, e tirando os dois escandalosos casos do BPN e do BPP, os bancos portugueses mereceram distinção. Passaram os testes de stress, estão tão sólidos quanto é possível, não incorreram em riscos excessivos da inovação financeira. E todos parecem estar mais do que preparados para passar nos novos rácios de capital de Basileia III. Tudo bem? Tudo mal.

A economia portuguesa não tem um problema com a banca. A banca é que tem um problema com a economia portuguesa. As dívidas ao Banco Central Europeu já ascendem à monstruosa fortuna de 50 mil milhões de euros e ainda ninguém se atreveu a fazer uma pergunta: e quando o BCE desligar as linhas de financiamento de socorro e tirar os doentes da câmara hiperbárica? Aquele financiamento é efémero e depende não apenas dos administradores do BCE, mas também dos governadores dos bancos centrais da Europa. E há países que já questionam a exposição do BCE a estes riscos de países como Portugal. O que faremos, depois?


Depois, será necessário pedir emprestado de novo aos "mercados", para pagar esses 50 mil milhões de euros, valor de créditos contraídos pela banca portuguesa no BCE. E é aí que os "mercados" olham para a República Portuguesa. Emprestarão?


É preciso preparar a estratégia de saída. Os bancos portugueses preparam-se para ter menos lucros, sofrerem as pressões dos aumentos de capital, aumentarem os "spreads". Os seus próprios accionistas vão ser postos à prova quanto ao grau de capitalização e de compromisso com o banco. Estiveram nos bons momentos, quando lucraram fortunas por tributar. Estarão nos maus?


Mas esta exigência vai ter impacto directo também na vida dos seus clientes, que vão pagar mais pelos empréstimos. E não só. Para conseguirem obter créditos, as empresas precisarão, elas próprias, de estar mais bem capitalizadas, acabando com práticas ardilosas, como fazer suprimentos em vez de aumentos de capital ou de fundir as contas do gestor com as do empresário, que são uma e a mesma pessoa.


É por isso que este jornal tem escrito quase todos os dias, e assim continuará, acerca do Orçamento do Estado. Não apenas ressaltando a necessidade de haver acordo político para o aprovar. Mas, sobretudo, para aprovar um Orçamento do Estado que preste. Preste atenção às dívidas que nos consomem e que, possivelmente, poderemos não conseguir continuar a suportar sozinhos.


Sócrates e Passos Coelho sabem disto. E, no entanto, agem como se a falência fosse uma impossibilidade quântica. Lembre-se de há dois anos: o dia de São Nunca à tarde existe. Nem que a vaca tussa.


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