Celso  Filipe
Celso Filipe 26 de fevereiro de 2018 às 23:00

Nós e a nova China imperial

Em Outubro do ano passado, o Partido Comunista da China decidiu introduzir o pensamento de Xi Jinping na Constituição do país, um estatuto que até então era exclusivo do líder da Grande Marcha, Mao Tsé-Tung , e do pai do socialismo de mercado, Deng Xiaoping.

Este fim-de-semana, a entronização de Xi Jinping teve um novo e decisivo capítulo, materializado na decisão do comité central de  remover da Constituição a expressão na qual se diz que o Presidente e o vice-presidente da República Popular da China não devem servir mais de dois mandatos consecutivos. Por outras palavras, Xi Jinping , que lidera o partido e o país desde Novembro de 2012, poderá perpetuar-se nas funções sem qualquer tipo de constrangimento.

Este movimento tem uma clara importância interna, sobretudo pelo poder ilimitado que confere a Xi Jinping e ao seu círculo de confiança, mas constitui também uma oportunidade para clarificar as relações entre a China e o Ocidente, marcadas pelos movimentos de aquisição que as empresas chinesas continuam a protagonizar na Europa. Os exemplos são múltiplos e como tal basta recordar apenas o último: a compra pela Fosun (que em Portugal detém a Fidelidade e controla 25% do BCP) de 75% do capital da casa francesa de moda Lanvin.

A China tem músculo financeiro e um regime que exerce o poder e define estratégias de forma autocrática, às quais todas as empresas, mesmo aquelas que na aparência são privadas, têm de se submeter. E o dinheiro chinês, sobretudo depois da crise financeira de 2008, deu muito jeito ao Velho Continente. Portugal que o diga.

As avaliações sobre a natureza do regime de Pequim são relevantes, mas inconsequentes. Não sendo expectável que o mundo ocidental corte relações com a China por razões de natureza moral, importa definir claramente os princípios de relacionamento entre as partes, estabelecendo como primado a reciprocidade. Outros dois factores decisivos nesta equação bilateral são a transparência (por razões de mercado) e a protecção de dados (por questões de segurança). Ou seja, o Ocidente deve aceitar o capital chinês na condição de que este se traduza em vantagens mútuas para ambas as partes, exigindo igual tratamento quando esteja em causa investimento estrangeiro na China.
 

Xi Jinping, com poderes reforçados, tem uma legitimidade acrescida para aprofundar o conceito de socialismo de mercado proclamado por Deng Xiaoping. Tratando-se de um caminho irreversível, este será também o momento adequado para o Ocidente e, em particular, a Europa fazerem valer os seus pontos de vista
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comentários mais recentes
Anónimo 27.02.2018

A China vai ser substituida pela índia enquanto fábrica mundial.

Anónimo 27.02.2018

Tudo começou com a revolução Russa de 1917, fez o ano passado 100 anos. Gostem ou não os capitalistas passaram a ter um sistema económico alternativo. Hoje passados 100 anos ultrapassou a centenária Europa e bate-se com a "nova" América... https://en.wikipedia.org/wiki/Russian_Revolution

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