André  Veríssimo
André Veríssimo 15 de fevereiro de 2018 às 23:00

O estreito caminho de Rio

A primeira prova de Rui Rio será sair do Congresso que hoje começa como um líder que pretende ser mais do que uma figura de transição.

Unir o partido é o primeiro desafio de um novo presidente. Rui Rio já começou a fazê-lo. Não deixou que a polémica do líder parlamentar fosse tema do Congresso e indicou o nome de Fernando Negrão, que tem a particularidade de ter sido apoiante de Santana Lopes. O seu adversário foi também convidado para cabeça-de-lista do conselho nacional.

Este é também o desafio mais fácil, pelo menos enquanto estiver nas graças dos militantes. O mais difícil será mesmo afirmar-se como alternativa a António Costa.

Rio não carrega o ónus de ter sido o primeiro-ministro da austeridade, como Passos Coelho. Mas enfrentará a mesma dificuldade em afirmar um discurso alternativo perante um Governo que apresenta um crescimento económico mais robusto e tem sido rigoroso nas contas públicas, indo até além das metas de Bruxelas no défice.

Para quem tem no rigor e na seriedade imagens de marca, como é o caso do novo líder do PSD, a prestação do Governo representa um esvaziamento do discurso político. Para quem se diz mais ao centro do que Passos Coelho, a reposição de rendimentos e política social empreendida pelo Governo funciona como terra queimada. António Costa marcou, tacticamente, como assunto do último debate quinzenal os temas da inovação e conhecimento, anunciando novas medidas, porque essas seriam bandeiras do Congresso social-democrata.

Voltemos aos atributos de imagem de Rui Rio. A sondagem da Aximage publicada hoje pelo Negócios e o Correio da Manhã diz que a maioria dos inquiridos considera António Costa mais solidário, acessível, realizador ou competente. O que diz bem do primeiro-ministro, mas não necessariamente mal de Rui Rio. O principal problema deste é que não se destaca em aspectos que são tidos como forças suas. Empata na honestidade, mas quando se pergunta a quem comprava um carro em segunda mão, António Costa é o preferido.

Rui Rio terá dificuldade em encontrar um oásis. Mas não fica sem discurso. Isso seria equivalente a dizer que não há alternativa ao rumo que tem sido seguido pelo Governo com o apoio do PS, PCP e Bloco, e obviamente ele existe. Há outras escolhas que podem ser feitas, em matérias fiscais, nas prioridades da despesa pública, na definição de uma agenda de crescimento. Há também bandeiras a que o líder do PSD se pode agarrar, como a descentralização.

A primeira prova será sair do Congresso que hoje começa como um líder que pretende ser mais do que uma figura de transição. A Assembleia da República, o país e até o Governo só têm a ganhar com uma oposição reabilitada e com nova energia.

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