Nuno Carregueiro
Nuno Carregueiro 26 de julho de 2018 às 23:00

O Facebook e a Jerónimo Martins

A actividade do Facebook nada tem a ver com o negócio da Jerónimo Martins e as duas empresas estão em geografias bem distintas. Mas há pontos em comum e que ajudam a explicar a reacção negativa das acções

Depois do fecho da sessão de quarta-feira em Wall Street, o Facebook anunciou que os lucros do segundo trimestre aumentaram 33% e as receitas deram um salto de 42%. Horas antes, a Jerónimo Martins tinha comunicado ao mercado que os resultados líquidos tinham crescido 3,9% no primeiro semestre, período em que as receitas aumentaram 8,7%.

 

Olhando para estes números de forma isolada e estanque, à partida concluir-se-ia que os resultados destas duas empresas foram bons, até porque a variação na maioria dos restantes indicadores da demonstração de resultados foi de sinal positivo.

 

Contudo, tendo em conta a reacção em bolsa das acções, os resultados foram péssimos. O Facebook foi alvo de um autêntico massacre em Wall Street, com as acções a caírem 20% numa só sessão, apagando mais de 100 mil milhões de dólares na capitalização bolsista da rede social de Mark Zuckerberg.

 

Na Jerónimo Martins a reacção foi menos violenta, mas a mossa também foi grande. As acções daquela que é a terceira cotada portuguesa mais valiosa chegaram a cair 10%, o que correspondeu à desvalorização diária mais forte desde que em Junho de 2016 os britânicos decidiram que queriam sair da União Europeia.

 

Então se os resultados foram bons, o que explica esta reacção tão negativa aos resultados das duas cotadas? A actividade do Facebook nada tem a ver com o negócio da Jerónimo Martins e as duas empresas estão em geografias bem distintas. Mas há pontos em comum e que ajudam a explicar esta reacção.

 

Desde logo os excelentes retornos que deram aos seus accionistas nos últimos tempos. A rede social mais do que duplicou de valor no primeiro ano completo em bolsa (2013) e desde então as acções já mais do que triplicaram, o que atirou o Facebook para o restrito lote de cotadas mundiais avaliadas em mais de 500 mil milhões de euros. O desempenho da Jerónimo Martins não é tão espectacular, mas os accionistas da retalhista também não têm razões de queixa, pois as acções duplicaram entre 2015 e o final do ano passado. A rede social beneficiou com o forte aumento do número de utilizadores e captação de publicidade, enquanto a retalhista portuguesa tem vindo a colher os frutos do forte crescimento no mercado polaco, onde é líder.

 

Ora foi precisamente nestes dois pontos que as duas cotadas decepcionaram os investidores. O Facebook já não cresce tanto e a margem de lucro vai descer devido aos custos para aumentar a segurança dos dados dos utilizadores. E na Polónia as vendas e o EBITDA da Biedronka já não crescem a dois dígitos.

 

A gestão de expectativas é uma ferramenta muito importante nos mercados, mas mesmo que o Facebook e Jerónimo Martins tenham falhado neste âmbito, quem no passado investiu nas duas cotadas com perspectiva de longo prazo continua não ter razões de queixa. Pelo menos para já.

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