André  Veríssimo
André Veríssimo 14 de junho de 2018 às 23:00

O fim de um tempo

O programa de compra de activos foi uma política monetária sem precedentes para responder a uma crise do euro também ela de profundidade inédita. O seu fim anunciado é um poderoso sinal de confiança num tempo de crescente incerteza.

A decisão mostra que, para o BCE, a economia do euro, mesmo crescendo um pouco menos, é agora capaz de caminhar sem a bengala dos estímulos monetários e aguentar os embates geopolíticos. Já era sem tempo.

O anúncio do fim do programa de compra de activos do BCE, a partir de Dezembro, que Mario Draghi anunciou esta quinta-feira, é, como titulava ontem este jornal, apenas o início do fim. O desmame da política de estímulos continuará a ser faseado, com o ritmo de compras a descer até Dezembro. O BCE não desaparece do mercado: as obrigações que estão no balanço do banco serão reinvestidas à medida que chegam à maturidade, durante um longo período. Os juros manter-se-ão em níveis historicamente baixos até ao final do Verão de 2019, ou ainda mais tempo se a baixa inflação o justificar.

Trata-se, ainda assim, de uma mudança de paradigma. Daqui em diante, o rumo das taxas de juro será para norte. O financiamento tenderá a ser mais caro para o Estado e para as empresas, como acontece nos EUA e já começou a acontecer na Zona Euro. Para os bancos será uma oportunidade para melhorarem a sua margem financeira.

Com a maré dos juros muito baixos a recuar, perceberemos melhor quem esteve a nadar sem calções. Será a prova dos nove sobre quem aproveitou estes anos para se reestruturar e robustecer ou, pelo contrário, deixou escapar a oportunidade.

É uma decisão também com implicações políticas. Empreender aventuras orçamentais despesistas será daqui em diante mais arriscado. O novo Governo italiano teria, por certo, preferido outro anúncio do seu compatriota.

Decisiva para manter a integridade da Zona Euro no seu momento de maior provação, a actuação do BCE marcou o modo de vida da última década. Também isso tenderá a mudar. O acesso a crédito ultrabarato de que as famílias ainda gozam tem agora um prazo de validade mais concreto.

O dinheiro mais caro ajudará a conter alguns excessos, como os preços galopantes no imobiliário, de que Portugal não é caso único. Excessos que, com frequência, alimentam novas e graves crises.
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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 4 dias

Pois...
E o petroleom a subir....

A xuxaria e geringonços fizeram ZERO REFORMAS e reverteram e reposeram e progrediram e aumentaram....

Vai ser bonito....

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