Celso  Filipe
Celso Filipe 13 de junho de 2018 às 23:00

O ópio de (quase) todos

O Mundial de futebol arranca hoje na Rússia. O ópio de (quase) todos dos tempos modernos alimentará sonhos, vai fazer parar países, encher páginas de jornal e colonizar as televisões. As vitórias irão insuflar o ego colectivo, as derrotas terão o efeito de procrastinar a glória. Como sempre sucedeu e se repetirá agora.

O futebol tornou-se, durante este caminho, um poderoso instrumento político e económico. E isso transformou­-o num opiáceo, atributo que em tempos Marx concedeu à religião, devido à sua capacidade de influenciar o comportamento das sociedades. Num mundo cada vez mais global, o Mundial servirá à Rússia para robustecer o seu estatuto de potência e vender uma aura de abertura que está longe de ter correspondência na forma como Vladimir Putin exerce internamente o poder.

Este primado da imagem é substantivamente visível no aproveitamento que as marcas fazem do Mundial. Trata­-se de um negócio de muitos milhões que rende outros tantos, ancorado muitas vezes numa exacerbação de valores nacionalistas. Os patrocinadores fazem as contas e asseguram que os seus investimentos no Mundial geram retornos generosos. Coisa bem diferente são os patrocinadores globais do torneio. Os escândalos de corrupção que envolveram o anterior presidente da FIFA, Joseph Blatter, tornaram o produto Mundial menos atractivo e as suspeitas sobre os critérios usados para escolher o país-sede do torneio, a Rússia este ano e o Qatar em 2022, adensaram as suspeitas, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, confirmaram a relevância que os Estados dão a este desporto para a sua autopromoção.

A FIFA ainda está a recuperar desta fase de descredibilização recente e a prova de algodão será feita quando escolher o país que receberá o Mundial de 2026, sendo que a introdução do VAR na arbitragem veio mitigar as suspeitas de favorecimento de determinados clubes ou selecções.

Os adeptos, mesmo conhecedores destes meandros pouco claros, olham para o futebol no seu estado puro, 11 contra 11, com a convicção absoluta de que a vitória da sua selecção é possível, mesmo quando o adversário é teoricamente mais forte. Escapam-se-lhes as construções políticas ou os lucros chorudos que alguns têm à conta do desporto.

É essa a beleza do futebol. E simultaneamente a sua maior fraqueza.
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