Manuel Esteves
Manuel Esteves 04 de março de 2018 às 23:00

O país onde tudo corre mal

Itália está metida numa encruzilhadas que só tem becos sem saída. E o problema não é apenas dos italianos, é nosso, dos europeus. Se há país que pagou cara a adesão ao euro foi Itália.

Quando o leitor estiver a ler estas linhas saberá seguramente mais sobre as eleições italianas do que eu enquanto as escrevo. Conhecerá os resultados das sondagens à boca das urnas e grande parte dos resultados finais. Ainda assim, pouco saberá sobre o futuro de Itália. 

A menos que os resultados se afastem muito das sondagens, nenhum partido ou coligação estará em condições de governar. Começarão então negociações para tentar formar um governo, todas elas anti-natura. Itália está numa encruzilhada de becos sem saída.

Se Portugal é o país onde tudo parece correr bem na economia, Itália é o país onde tudo corre mal. É verdade que a economia cresce ao nível mais alto dos últimos anos, mas menos do que a maioria dos seus pares e a criação de riqueza_continua muito abaixo dos níveis pré-crise – pior só na Grécia.

Ao contrário de Portugal que reduziu o desemprego abaixo da fasquia dos 8%, em Itália continua acima dos 10%. E pior, a pobreza não pára de aumentar. Cerca de 30% dos italianos está em risco de pobreza, ultrapassando o mesmo indicador para Portugal ou Espanha. 

Nas contas públicas, a situação não é melhor. Itália tem a segunda maior dívida pública, em torno de 130% do PIB , já acima de Portugal, que se consegue financiar agora a juros similares aos do Estado transalpino. Também no défice público, Portugal faz melhor figura. 

Não admira, por isso, que uma das principais preocupações dos italianos seja a economia. Porém, impotentes, os italianos parecem canalizar a sua frustração e raiva para o elo mais fraco: os imigrantes. A entrada massiva de imigrantes africanos agravou mais as pulsões xenófobas que sempre existiram no país, fortalecendo a extrema-direita e empurrando os partidos do centro para um discurso hostil face aos estrangeiros.

Mas o que mais impressiona é o lodo em que se transformou o sistema político italiano. A esquerda eclipsou-se, com o Partido Democrata a perder eleitorado quase tão depressa como perdeu a sua identidade; a direita radicalizou e definhou ao ponto de ser liderada por um ex-primeiro-ministro de 81 anos, impedido de chefiar o governo por ter sido condenado por fraude fiscal:_Silvio Berlusconi. E que partidos emergem como alternativa? O Cinco Estrelas, uma amálgama populista que se alimenta da descrença dos italianos com os partidos tradicionais; e a Liga Norte, que deixou cair o Norte para semear (e colher) por todo o país o seu discurso xenófobo e odioso.

Em Itália, ainda terá de acontecer muita coisa má até vermos alguma coisa boa. E o problema não é só deles, italianos. É também nosso, europeus. Se há país que pagou cara a adesão ao euro foi Itália. Estrangulada pelos desequilíbrios macroeconómicos de uma união monetária incompleta, manietada por rígidas regras orçamentais que não lhe servem e sem instrumentos monetários ao seu dispor, aquela que ainda é a oitava maior economia do mundo parece condenada a definhar por muitos mais anos. E com ela, parte da Europa.

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