Celso  Filipe
Celso Filipe 28 de fevereiro de 2018 às 23:00

O príncipe das adversativas

António Costa bem que merece o título de príncipe das adversativas, tal a mestria com que pratica a arte deste género de conjunções, as quais decora com expressões faciais seráficas.

Ontem, o primeiro-ministro voltou a fazer das suas, tentando aprisionar o PSD a consensos (o que irrita o PCP e o Bloco de Esquerda), mas lembrando que os comunistas e os bloquistas não podem ser excluídos deste movimento (o que irrita o PSD). "Tal como antes não era possível manter um arco da governação que mantinha parte do sistema político sem espaço de intervenção na área governativa, não se crie agora um novo arco da governação que exclui outros", afirmou António Costa. Sendo que o subtexto é uma admoestação ao PCP e ao Bloco, do género, não façam aos outros aquilo que não gostavam que vos fizessem a vocês.

O novo arco de governação, na concepção do primeiro­-ministro, baseia-se na premissa de que o PS e o Governo são o centro, têm o privilégio de escolher os seus aliados de circunstância e os preteridos devem aceitar o seu destino ocasional sem qualquer tipo de lamento porque, como salienta o próprio, "não pode haver na sociedade política portuguesa mecanismos de exclusão".

António Costa é príncipe neste reino de adversativas e sabe que esta gestão dos equilíbrios políticos lhe garante dividendos políticos, potenciados por uma conjuntura económica favorável. É condescendente com as partes (por exemplo, elogiou a "mudança saudável no PSD"), e transformou a sua fraqueza, um Governo minoritário, na maior força, a criação de laços que o PCP e o Bloco não podem desatar sob pena de serem penalizados nas urnas.

O CDS/PP, para já, mantém-se afastado desta teia e tem vindo a retirar dividendos desta "virgindade" enquanto oposição. Já o PSD está numa encruzilhada. Ou escolhe um caminho de confronto como Governo, ou então ensaia aproximações, ainda que casuísticas, em matérias como a descentralização.

O problema de fundo é que, em qualquer dos casos, o Governo e o PS tiram vantagens, seja criticando a falta de sentido de Estado do PSD, ou através da subalternização do partido liderado por Rui Rio. Aliás, a perversidade da coisa está espelhada no título da página 4 desta edição do Negócios: "Governo de esquerda põe PIB a crescer ‘à la direita’."

António Costa parece ter o xadrez político controlado. A não ser que lhe surja um imprevisto (como o foram os incêndios) ou Rui Rio descubra uma estratégia efectiva para apear o príncipe das adversativas. A parada está alta.

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