André  Veríssimo
André Veríssimo 25 de fevereiro de 2018 às 23:00

O princípio do fim dos juros baixos

Os mercados financeiros, e com eles a economia global, atravessam uma alteração de fundo: o ciclo de ganhos nas obrigações, e correspondente descida dos juros, que dura há já três décadas, terá chegado ao fim.

É uma consequência natural do maior crescimento económico e do regresso da inflação, que obrigam a uma política monetária mais restritiva, com juros mais altos. E seria pacífico não fosse o mundo um lugar muito mais endividado.

A estratégia de resposta à crise de 2008 pode ser resumida, em traços largos, num aumento da despesa pública (e dos défices) para compensar a retracção da despesa privada. A intervenção dos governos contou com a indispensável ajuda dos bancos centrais para baixar o custo da dívida estatal gerada. Foi assim nos EUA, no Japão ou na Europa, embora com "timings" diferentes.

Também as empresas tiraram partido deste ambiente de taxas de juro historicamente baixas, aumentando o endividamento. Mesmo os "ratings" de alto risco conseguiam financiamento barato nos mercados, tal era a sede dos investidores por rendimento.

A factura vai agora chegar. Na sexta-feira, o Financial Times fez manchete com as preocupações da OCDE sobre a maré, cada vez mais cheia, de dívida nos orçamentos dos países ricos: passou de 25 biliões de dólares em 2008 para mais de 45 biliões. Destes, 40% terão de ser refinanciados nos próximos três anos, muito provavelmente com custos mais altos.

O jornal sublinha a mudança de posicionamento da organização, que até Novembro vinha apelando ao alívio fiscal para apoiar a retoma, mas agora está preocupada com o impacto do novo ambiente de juros mais elevados nos orçamentos nacionais. Talvez porque a mudança para o novo paradigma está a ocorrer mais depressa do que previa.


A dívida americana serve de farol, com a taxa das obrigações de dívida pública americana a dez anos a atingirem a semana passada os 2,9%, o valor mais elevado em quatro anos. É pouco em termos históricos, mas o nível de endividamento é agora muito maior.


Na Zona Euro, mesmo o BCE mantendo o discurso de que não aumentará a taxa de referência até ao final de 2019, as taxas já estão a subir arrastadas pelas americanas e incorporando a reversão da política monetária.

Neste novo paradigma, os países e empresas mais endividados ficarão mais vulneráveis. É o caso de Portugal. Embora a dívida pública tenha descido em 2017 para o nível mais baixo em cinco anos (126,2% do PIB), continua a ser perigosamente elevada.

Este contexto será gerível se os juros não subirem muito, nem demasiado depressa. É o que tentarão fazer, a todo o custo, os bancos centrais, que terão a difícil missão de conter as pressões inflaccionistas sem arrefecer demasiado a economia. 
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