André  Veríssimo
André Veríssimo 20 de fevereiro de 2018 às 23:00

O regresso da má dívida

O passa-culpas da falta de financiamento às empresas tornou-se um clássico. Os bancos dizem que não dão mais crédito porque faltam boas empresas e projectos que o queiram. As empresas queixam-se que há bons investimentos que ficam na gaveta por falta de crédito.

Veio a retoma, o crescimento mais elevado do século, mas a teima mantém-se.

O crédito concedido às empresas em 2017 foi o mais baixo desde, pelo menos, 2003, o último ano a que a série do Banco de Portugal permite recuar. O bolo total de financiamento está no nível mais baixo desde 2002.

Não é má vontade dos bancos. É risco. Neste caso, a impossibilidade de o tomar, muito por culpa da grande parte de crédito não rentável e malparado que ainda existe no balanço das instituições financeiras.

Esta terça-feira, na sua estreia no Parlamento Europeu como presidente do Eurogrupo, Mário Centeno puxou mais uma vez pelos galões da obra feita: "Consertámos e recapitalizámos o nosso sistema bancário." A incapacidade da banca para apoiar financeiramente as empresas mostra que o conserto de que fala Mário Centeno é uma obra inacabada.  Esse sangue continua a faltar a esta retoma. O que ainda safa são os fundos europeus.

Mais ao menos há mesma hora que falava o ministro das Finanças, o governador do Banco de Portugal sublinhava, num evento da gestora da bolsa de Lisboa, a urgência de a banca ser mais expedita na resolução do problema do malparado. E deixou outro alerta: "Estamos a estabilizar a dívida, mas não estamos a reduzir."

O crédito está de volta, mas não para as empresas. É para as famílias, sobretudo para habitação. No ano passado, os novos empréstimos subiram para máximos de 2010 e o bolo global vai voltar a subir. A desalavancagem das famílias já está a travar e ameaça mesmo inverter-se. O regulador já avançou com medidas para refrear os ânimos, veremos se serão suficientes.

Este novo "boom" tem o efeito secundário indesejável de o crédito estar a ir de novo para o imobiliário habitacional, por norma um bem não transaccionável.

A_verdade é que é mais seguro, e consome menos capital, emprestar para a compra de habitação do que financiar empresas. Além de que estas estão mais endividadas (137,9% do PIB) do que as famílias (74,5%).

A alternativa está nos capitais próprios. O Programa Capitalizar lançado pelo Governo está cheio de boa vontade, mas não chega. Era importante que o mercado de capitais, em vez de minguar, ganhasse protagonismo. O  presidente da bolsa de Lisboa pediu ontem – como outros antes dele – incentivos fiscais para o revitalizar. Sem eles, nada feito. E nada se fará enquanto o Governo depender do apoio parlamentar do PCP e Bloco.

Os bancos nem querem ouvir falar em mercado de capitais. Continuam focados apenas em conceder crédito às boas empresas. Às poucas boas empresas.
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