Celso  Filipe
Celso Filipe 12 de março de 2018 às 23:00

O último obstáculo

Mais do que a liderança renovada do PSD protagonizada por Rui Rio, ou as ambições do CDS/PP verbalizadas por Assunção Cristas, o desafio que se coloca ao Governo por estes dias é lançado por diversas corporações da Função Pública. Os protestos materializam-se nas habituais ameaças de greve, caso o Governo não apresente propostas ou concretize promessas que permitam resolver o problema das progressões na carreira.

É precisamente esta cola que une classes profissionais como a justiça, médicos, enfermeiros, professores e polícias.

António Costa e os respectivos ministros da tutela vão ter de procurar fazer a famigerada quadratura do círculo, a de tentar satisfazer as reivindicações destas corporações respeitando os compromissos orçamentais que Portugal assumiu junto da Comissão Europeia e dos quais o ministro das Finanças, Mário Centeno, é o fiel guardião.

No plano abstracto, esta disputa entre o Governo e os vários sectores da Função Pública satisfaz os interesses de todos os partidos, exceptuando, claro, o PS. PCP e Bloco de Esquerda apoiam o Governo, mas olham para estes previsíveis movimentos de contestação como uma forma de pressão para o encostar mais à esquerda.

O PSD e o CDS/PP, por sua vez, não perderão a oportunidade de tentar retirar dividendos, qualquer que seja o cenário. Em caso de acordo brandirão a argumentação da subida da despesa pública e até de uma certa tibieza governativa. Num cenário de desacordo apontarão para a incapacidade negocial do Governo e a sua apetência para fazer uma gestão de curto prazo, impeditiva de reformas e consensos. Em ambas as situações com cautelas, porque nenhum partido se pode dar ao luxo de hostilizar a Função Pública, uma franja importante para decidir o resultado das eleições do próximo ano.

As legislativas de 2019 são precisamente o pano de fundo destes diversos movimentos de contestação, na medida em que o calendário torna o Governo mais permeável às reivindicações e disposto a satisfazê-las, de forma a receber dividendos lá mais para a frente. Mas os sindicatos também têm a noção de que não podem esticar muito a corda, porque a estrutura política que apoia este Governo é-lhes (aparentemente) mais favorável.

As greves regionais dos professores que se realizarão nos próximos quatro dias fazem parte de uma maratona que terá de ser concluída sem que ninguém pareça ter sido derrotado. Este é, porventura, o último obstáculo à vitória de António Costa e do PS nas eleições de 2019.  
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comentários mais recentes
Alentejano 13.03.2018

As esquerdas e o clube dos direitos adquiridos irão comer-se vivos conforme os reformados forem avisando o Centrão que ou as reformas se mantém ou irão paga-las neste aspecto o PCP e mesmo o BE são mais espertos entre os velhos e os funcionários públicos tentam os funcionários que votarão por+tempo

Alentejano 13.03.2018

Empresas estatais?ISSS ou nas IPSS que todos pagamos? porque ninguém cria uma lei de verdadeiro enquadramento das fundações ? tanto quanto sei apenas 4 ou 5 fundações em Portugal servem o seu propósito o resto são fuga aos impostos! Essa gordura está nos municípios talvez? onde está o estudo ?

Alentejano 13.03.2018

O que eu acho extraordinário é a ausência de um verdadeiro estudo como aquele que Maria de Lurdes Rodrigues ou António Correia de Campos usaram para justificar as reformas necessárias que foram paradas pela cobardia do acima mencionado! Onde estão as gorduras do estado ? 30/40% dos ministérios?

Alentejano 13.03.2018

Alias conforme a próxima bater e os recursos voltarem a ser insuficientes o governo passará a ter de fazer escolhas complicadas e alguns desses terão de ser sacrificados! Ao menos o Passos sacrificou por igual algo que para as esquerdas é inconcebível não tem noção de equidade excepto em +impostos!

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