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O mundo virou PIG

Era uma vez um tempo em que a dívida era um problema de países menores, desprezados e periféricos como a Grécia, Irlanda e Portugal.

Era uma vez um tempo em que a dívida era um problema de países menores, desprezados e periféricos como a Grécia, Irlanda e Portugal. Estamos finalmente a enfrentar a realidade, o primeiro passo para a mudança. Agora, sim, e popularmente falando, "ou vai ou racha": na Europa e no equilíbrio de poderes do mundo.

O problema da dívida está, há muito, do outro lado do Atlântico e também em países como a Itália. As dificuldades de acesso ao crédito de países como a Grécia, Irlanda e Portugal tinham as suas raízes no excesso de endividamento e não por causa da Grécia, Portugal e Irlanda.

Um banqueiro central comparou recentemente o ciclo do financiamento com um fontanário com vários pratos, uns em cima dos outros. Nos pratos de cima estão economias como os Estados Unidos, a Itália, o Reino Unido e até a Alemanha. Nos pratos do fundo estão países como a Grécia, a Irlanda e Portugal. A corrente da água - a poupança mundial - que jorra de cima tornou-se cada vez mais reduzida. E os pratos de baixo foram ficando cada vez com menos água, leia-se, financiamento. Mas foram apenas os primeiros. Chegou a vez dos pratos de cima, como os Estados Unidos e a Itália, enfrentarem também a falta de água, a escassez de uma poupança mundial localizada na Ásia, com a China a liderar, em África e, menos, na América do Sul.

A metáfora do fontanário não desculpabiliza os excessos cometidos por países como Portugal. Mas mostra que o problema fundamental não está nos ditos periféricos indisciplinados. Os países ricos do hemisfério Norte e do Ocidente vivem acima das suas possibilidades, com crédito alimentado pelas poupanças da parte do mundo que é mais pobre.

As últimas três semanas tiveram a virtude de obrigar os líderes dos países mais poderosos deste mundo rico talvez não ainda a enfrentar, mas pelo menos a confrontarem-se com a realidade. Já não é mais possível aos Estados Unidos dizerem que não são Portugal ou à Alemanha criticar o despesismo dos portugueses. O problema da dívida deixou de estar circunscrito a uns indisciplinados do Sul da Europa. Está demonstrado que mundo rico é todo ele PIG de Portugal Irlanda e Grécia. E agora, sim, podemos esperar que o problema comece a resolver-se.

Ter uma noção mais rigorosa do problema não significa, contudo, que ele venha a ser resolvido com aquela que consideramos ser a melhor fórmula. Apenas nos diz que estamos mais perto de uma saída. Que pode ser pior ou melhor mas que, em qualquer circunstância, seja qual for o caminho, vamos piorar antes de melhorar.

Financeiramente falando, um problema de excesso de dívida tem basicamente duas soluções. Uma é um qualquer tipo de incumprimento - nominal, como a Zona Euro propõe para a Grécia, ou real, como os Estados Unidos estão a fazer com a desvalorização do dólar. A outra solução - que se pode e está a combinar com a anterior - é a redução da procura interna, diminuindo assim a dependência da poupança externa mas gerando uma inevitável recessão. Para uma efectiva correcção dos actuais desequilíbrios financeiros, quem consome mais do que poupa terá de voltar a fazer uma vida de acordo com as suas possibilidades. E se quem poupa mais, como a China, não consumir mais, todo o mundo ficará mais pobre.

O reequilibro financeiro do mundo não se faz sem mudanças, que exigem escolhas. Na Europa, a melhor opção para todos é mais integração política na Zona Euro, já que o problema não se resolve com o BCE a comprar dívida pública. Mas a História mostra que nem sempre o escolhido é o melhor para todos. Estamos no momento da verdade, no dilema entre ir para mais Europa ou para Europa nenhuma.


helenagarrido@negocios.pt

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