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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 23 de Julho de 2012 às 23:30

O Pólo Norton

A geração que construiu os grupos económicos a partir dos anos 80 está a entregar o poder. Sonae, Jerónimo ou Impresa são agora lideradas por gente de 40 anos. Quase sempre, as famílias escolhem entre os seus filhos. Balsemão não escolheu nem filhos nem afilhado: Pedro Norton é o novo presidente executivo da Impresa.

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Mais do que uma sucessão, é uma transição geracional. Doravante dir-se-á que a escolha de Pedro Norton era a óbvia. Não era. Na Sonae Belmiro escolheu Paulo, na Jerónimo Alexandre escolheu Pedro, no grupo Amorim Américo escolhe Paula, na Bial Luís escolheu António. Sobre todas estas sucessões, pelo que representam, aqui se escreveu. Uma lista que prosseguiu sempre mantendo os apelidos. Isso não faz destes casos meras banalidades. Mas faz da Impresa uma excepção.

Pedro Norton será o presidente executivo da Impresa, grupo concorrente da Cofina, a que pertence o Negócios. Tem pela frente muita água pela barba. Porque o grupo Impresa tem uma dívida colossal. Porque a comunicação social vive a sua própria recessão, com quebras dramáticas no mercado de publicidade, mudanças radicais no consumo de informação, operações descapitalizadas e franco-atiradores que compram ou querem comprar jornais sem saberem geri-los ou respeitá-los, apenas por um poder que reconhecem mas não entendem.

Primeiro, a colher de chá: Pinto Balsemão é o último grande jornalista dono de jornais, o que lhe assegura o respeito e admiração de toda a classe. Porque ele pertence à tribo: é um jornalista. E porque deixa um império de comunicação social que, digam o que disserem (e há o que dizer), vive disso: de jornalismo.

Agora, a colher de rícino: Balsemão sai de cena depois de batalhas infernais que não desejaria ao seu maior inimigo. Depois de ter ganho muito dinheiro com o seu amigo João Rendeiro, perdeu quase 40 milhões... com o seu amigo João Rendeiro. Dentro de casa, tinha a Ongoing, com quem teve um grande amor e depois uma grande guerra, quase um parricídio. O projecto de poder da Ongoing falhou, em abono do ar que respiramos, mas é conveniente admitir que a história está a ser contada por quem a venceu: muitas críticas de falta de resultados da Impresa estavam absolutamente correctos. Como se não bastasse, ainda se descobriram relatórios miseráveis sobre a vida de Balsemão e manobras canalhas de uma espécie de contra-espionagem alucinada.

Pela frente está uma batalha chamada privatização da RTP. E a capitalização da Impresa. O que Balsemão mostrou nos últimos dois anos foi uma notável capacidade de sobrevivência. Poder. Com novas alianças, negou-se ao declínio. À aliança de sempre do BPI juntou-se o apoio do BES e uma parceria com os angolanos da Sonangol, que agora dominam o BCP. Na política, o rei número 1 do PSD bate-se contra o valete de ocasião, Miguel Relvas. A história ainda não acabou.

A sucessão na Impresa não é, portanto, a reforma de Francisco Pinto Balsemão. Mas é ocasião para salientar um projecto que resiste contra aqueles que, comprando jornais, querem comprar o jornalismo. E esse não é assunto de grupos económicos, é um assunto de democracia.

Essa é a principal responsabilidade de Pedro Norton, garantir as condições de gestão que a Impresa falhou no passado que garantam a sustentabilidade financeira da empresa, para satisfazer os accionistas e resguardar as condições de independência e liberdade de imprensa. Num país em traficâncias, isso é muito mais difícil do que parece.

Pedro Norton assume que a Impresa é o seu projecto de sonho. Não é jornalista, nem financeiro e cita filmes de Max Ophüls, o que diz mais dele do que um "curriculum vitae". E assim se sucede um senador.



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