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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 30 de Setembro de 2011 às 11:17

O poder da banca e de António Borges

A Europa ocidental e a América do Norte estão no estado em que estão porque os Estados se deixaram capturar pela banca.

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A Europa Ocidental e a América do Norte estão no estado em que estão porque os Estados se deixaram capturar pela banca. Também em Portugal, como se vê, o maior problema não é o cidadão anónimo mas os pequenos poderes e os grandes grupos de pressão.

A banca em Portugal, tal como em boa parte dos países europeus e nos Estados Unidos, impôs as regras do jogo em cumplicidades variadas com os governos. O tipo de resistência que está a fazer às regras impostas pelos financiadores internacionais revela bem que a banca portuguesa está habituada a fazer as coisas à sua maneira. Claro que, na pureza das regras de funcionamento do mercado, os bancos estão a fazer aquilo que devem na defesa dos seus accionistas e na lógica da orientação para os resultados a curto prazo, a grande marca do capitalismo financeiro.

Mas cabe às autoridades de supervisão remar contra essa orientação da banca que não defende nem os interesses das instituições financeiras a médio e longo prazo nem, claro, o interesse público. Por muito que a banca não o deseje, a sua capitalização acima dos limites que são exigidos a países não intervencionados é o preço a pagar pela credibilização e, neste momento, é a garantia de que as nuvens que se vêem para os lados da Grécia não chegam a Portugal.

Num quadro como o actual, as autoridades, do Governo ao Banco de Portugal, da Presidência da República às instâncias internacionais, têm de actuar num mesmo sentido: obrigar a banca a ganhar a solidez que gera a credibilidade que abre os mercados financeiros. E, ao mesmo tempo, garantir que a banca não opta por uma estratégia de reforço da sua solidez que, na prática, é uma bomba-relógio. Ganhar solidez reduzindo o crédito à economia é criar mais crédito malparado que vai exigir ainda mais aumentos de capital.

Traçado este cenário olhemos agora para a arquitectura do envelope financeiro da troika. Tal como foi avisado na altura das negociações, o empréstimo da troika devia ter sido mais elevado e a par (ou em vez) de cativar uma tranche para recapitalizar a banca deveria ter consagrado um envelope para o Estado pagar as suas dívidas e reduzir o passivo das empresas públicas. Respeitar-se-iam mais as regras do mercado. Mas ninguém na troika quis que fosse assim.

Por se saber que o que está no plano de ajustamento é aquilo que o FMI quis é que o artigo ontem publicado na Exame pelo director do departamento do FMI para a Europa causa grande perplexidade. António Borges tem a obrigação de saber que os objectivos de redução do rácio de transformação, de depósitos em crédito, fazem parte integrante dos modelos de ajustamento. Existem para Portugal como existem para a Irlanda e para a Grécia. Por isso, se António Borges considera que o objectivo é "irrealista", como responsável da área do FMI para a Europa tem todas as condições, e até a obrigação, para o tornar realista.

A atitude de António Borges em relação a Portugal tem sido aliás difícil de compreender pelo potencial que tem de prejudicar o País. Em Washington, na conferência de imprensa do FMI, Borges fez sublinhados dramáticos em relação ao caso do buraco descoberto na Madeira dizendo coisas como "muito, muito preocupante" ou "no caso português as surpresas foram muito grandes, muito, muito grandes" ou ainda que dava a "sensação de falta de controlo". António Borges, que já foi vice-governador do Banco de Portugal e vice-presidente do PSD, conhece a Madeira como todos nós, sabe que é um caso peculiar e que não tem a gravidade que lhe deu - como não foi dada por outros, analistas internacionais que pouco sabem do País. Por ser um português no FMI não tem de ajudar Portugal mas também não pode, por razões que a razão desconhece, criar problemas. O País já tem problemas suficientes.


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