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O reino do improviso

O consenso geral identifica Portugal como um país em que o improviso supera a capacidade de planeamento.

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O consenso geral identifica Portugal como um país em que o improviso supera a capacidade de planeamento. Em vez de se anteciparem os problemas, tentam arranjar-se soluções à medida que as dificuldades vão surgindo. Em vez de se tentar controlar o risco, potencia-se a capacidade das ameaças para provocarem danos desnecessários.

A incapacidade para pensar nas consequências futuras de decisões tomadas hoje é um dos motivos para o país ter chegado ao a estado a que chegou. A expressão "logo se vê" esteve na base de despesas irreflectidas, investimentos mal ponderados e um endividamento acumulado que demorará longos anos a ser corrigido.

Num país em que se confia na sorte ou na capacidade para improvisar, é natural que se poupe pouco. Lá está: gasta-se agora e depois "logo se vê". É uma atitude imprudente e tem os custos que estão agora à vista. Austeridade, cortes nos rendimentos, apertos no crédito, que se tornou escasso e caro, são a face visível de uma recessão longa e dolorosa.

E, no entanto, poupar de forma planeada é bem mais fácil do que parece. Exige disciplina, a consciência de que abdicar de consumos actuais para poder garantir consumos futuros tem vantagens e, no final, pede meia dúzia de decisões simples.

Pegue-se na questão da reforma. As mudanças introduzidas no sistema público de pensões, em 2007, visaram salvaguardar o mecanismo da redistribuição, em que os reformados de hoje são pagos por quem está na vida activa, através de descontos que incidem sobre os salários e de contribuições a cargo dos empregadores. Para o conseguir, foi necessário encontrar uma fórmula de cálculo que assegura pensões de reforma mais baixas e que ficam acessíveis mais tarde, por via do aumento da idade da reforma.

Em consequência, há estudos que traçam um cenário preocupante. A prazo, a taxa de substituição andará em redor de 50%. Isto é, quando chegar a altura, um recém-reformado não terá uma expectativa melhor do que a de receber uma pensão equivalente apenas a metade do seu último vencimento. Por conveniência política e, também, por interesse das gerações que ainda vão desfrutar de benefícios que não estarão ao alcance dos seus sucessores, a percepção desta situação é, ainda, muito vaga.

Existe uma agravante, que é a tendência para o improviso. Para quem está a entrar na idade activa, a reforma encontra-se a décadas de distância. Por isto, quando o momento chegar, "logo se vê". Este é o mau caminho. Diferente, é fazer um plano e poupar o que se puder, mensalmente, ainda que seja pouco. O improviso dá bons resultados, mas é no jazz.
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