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Raul Vaz raulvaz@negocios.pt 30 de Setembro de 2016 às 00:01

O tango de Mariana

Se Guterres perder, e pode perder, é uma injustiça. Mas é assim que o mundo está, a começar pelo nosso cantinho. Injusto quando alguma qualidade conflitua com o "mainstream", hipócrita sempre que o "mainstream" se sente acossado.

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Deixemos, pois, esse mundo das finas decisões. Estamos, aparentemente, no epicentro da inteligência. Toda a inteligência, intuitiva, emocional, cognitiva. E o que vemos? O costume, desde que o poder atrai e constrói um perfil no registo de uma roupagem político-ideológica. Com naturais e evidentes diferenças.

Se pensarmos um pouco no que está a acontecer na nossa aldeia, teremos de reconhecer méritos à dança do Bloco de Esquerda. Com expressão de época em Mariana Mortágua. É Mariana quem assume o conflito latente na geringonça. E, para começo de uma conversa que vai ser feia, desafia António Costa a deixar-se de salamaleques.

O imposto sobre o património (que Costa já decidiu não dar em nada além de meia dúzia de tostões) deu gás ao Bloco de Mariana. Sucedem-se as declarações (foi fuga, não foi, foi ele quem disse ou ela que se aproveitou) com um objectivo claro: aproveitar a deixa para mostrar quem manda na geringonça. Ou melhor: quem tem mais poder e influência sobre o ritmo da dança.

Tudo, ou quase tudo, serve para um bom bailarico. Numa das entrevistas para que foi desafiada (ontem à Antena 1), Mariana Mortágua atirou sobre o seu cúmplice do Partido Comunista e membro ondulante da geringonça para dizer que, "no meio do ataque à direita", João Oliveira deveria "escolher criticar quem está a defender". Eis um exemplo de clareza na hipocrisia que rege e sustenta o Governo. O tango, dança de sedução, é para se dançar a dois. O terceiro atrapalha.

Não se conhece qualquer reacção do líder parlamentar comunista à pantufada do Bloco, que não se limita ao remoque. Vai, porque quer, ao desafio público do que "seria muito mais produtivo para o país". E o que seria mais produtivo? O Partido Comunista sentar-se "à mesma mesa" do Bloco, trocando uma ideia de sociedade por um momento de glória. Essa é, claramente, uma dificuldade para a dança insinuante de Mariana Mortágua.

António Guterres vive um dilema: é do melhor que há e é essa condição que o diminui. Aqui, quando não foi capaz de se impor à mercearia da esquina; lá fora, quando a origem o limita na banda larga do lóbi global.

Não é por ser Guterres o mais qualificado candidato à liderança das Nações Unidas que se confirma o anunciado. Algures no tabuleiro da hipocrisia, surge uma carta marcada que ameaça manter tudo como está: há cinco que mandam e dispõem de 193. É por isso que há, e haverá sempre, uma Kristalina.

Lá fora como cá dentro. 

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