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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 27 de Fevereiro de 2013 às 23:00

Obrigada emigração, o euro agradece-te

São 26 milhões de homens e mulheres na União Europeia, 18 milhões dos quais nos 17 países da Zona Euro, que querem trabalhar e não encontram emprego. Em Portugal, são quase um milhão de pessoas. Em Espanha, quase seis milhões. Em Itália, perto de três milhões. Na Grécia, mais de um milhão. Na Irlanda, são quase 500 mil pessoas.

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Cinco países do euro concentram mais de 60% do desemprego. Há uma Zona Euro de pleno emprego e uma Zona Euro de desemprego. Uma fronteira nunca antecipada e ainda menos prometida quando se seduziram os povos para a União Monetária.

Que é feito dos postos de trabalho que iriam ser criados pelo mercado único e pela união monetária? Uns perderam-se, consumidos pelas culpas cruzadas de uma crise financeira, nascida da incompreensão da inovação e da desregulação financeira no mundo, e do desconhecimento dos efeitos de uma moeda única sem união política. Outros ganharam-se nos países credores do euro, os grandes vencedores desta crise.

A falta de emprego num lado do euro, o Sul com a Irlanda, e o excesso dele no outro lado, o Norte, acaba por demonstrar como muitos dos alertas que se quiseram fazer na construção do euro estavam certos. Ninguém os queria ouvir e muito menos discutir. E hoje eis que a realidade força a emigração como a via da sobrevivência individual e o inevitável caminho de reequilíbrio social e político do euro.

Não há zona monetária que sobreviva política e socialmente sem que as pessoas estejam disponíveis a mudar para onde há trabalho e sem mecanismos que compensem choques económicos assimétricos, que só afectam uma parte do território. Estes foram dois dos temas tabus, especialmente o segundo, o do envelope financeiro, que se evitou a todo o custo debater quando se lançou o euro.

Houve mesmo, na altura, quem considerasse que não era possível imaginar um choque assimétrico que merecesse a energia da construção de ferramentas para o combater. O que era um choque assimétrico nessa era de sincronização dos ciclos, desafiava-se na altura com esta pergunta os que se atreviam a perguntar. Um terramoto como o de 1755? Mas isso pouco acontece.

Os tempos em que vivemos desde que os Estados Unidos lançaram o Ocidente nesta crise financeira mostraram que a notícia da morte anunciada de terramotos económicos e financeiros localizados era "manifestamente exagerada". As estatísticas que mais tocam na vida das pessoas, as do emprego, do desemprego e da queda do rendimento, mostram que a Zona Euro vive no pior dos mundos: sofre os efeitos de um choque assimétrico sem que tenha ferramentas macroeconómicas para os combater. Resta-lhe a reacção da mobilidade, da emigração que alivia as tensões políticas e sociais.

Andreia em Sidney, Bruno em Nicósia, Andreia em Boston, Cláudio em Trinidad, Ricardo em Brasília, Luís em Phnom Pen, no Camboja, Mariana em Maputo. São apenas alguns dos muitos de nós que resolveram partir com histórias que o Negócios hoje conta com a participação da Antena 1. Uns começaram com Erasmus, outros saíram já por causa da crise porque perderam o emprego. Gostavam mais de estar em Portugal? Uns sim, outros não.

A emigração acaba por ser uma das saídas mais viável para os cidadãos que vivem em países que não têm armas para combater a crise em que estão. Como Portugal, a Irlanda, a Grécia, a Espanha e a Itália. O que sobra? É a política do cada um por si, pela sua família, pela sua comunidade, procurando viver onde há trabalho. Os portugueses, habituados a enfrentar as crises do seu país emigrando, estão habituados. Como os irlandeses. O Estado criou a ilusão que resolvia tudo quando afinal nada podia. Sobramos nós, como sempre, ao longo da história. E resolvendo o nosso problema estamos a resolver as tensões que se acumulam numa união monetária mal construída. A sobrevivência do euro terá um dia de homenagear os emigrantes, os homens e mulheres que, saindo dos seus países, resolvem parte do problema de quem fica, criando menos tensão, gerando menos riscos de implosão social e política. Ao emigrante, português, irlandês, espanhol, o euro um dia agradecerá.

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