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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 22 de Julho de 2010 às 11:41

Onde pára o dinheiro?

O País da crise está de férias. O corpo talvez ainda esteja no gabinete, mas a cabeça já está de férias. Pela largueza com que se anda a gastar dinheiro, só pode. Crise? Bah!... Da abnegação à negação foi só um semestre. E o próximo?

Há poucas expressões mais entediantes para muitos leitores do que esta: "execução orçamental." Mas faça um esforço: é a medida do acerto ou desvario do Estado, o que, a prazo, se traduz em menos ou mais impostos. Pois bem, a execução do último mês foi má, com um aumento grande da despesa, derrapagem em diversas autarquias e uma sobrecarga dos juros pagos pelo Estado crescente, começando a reflectir as taxas elevadas das emissões de dívida deste ano. O saldo é negativo, apesar da subida das receitas.

Apesar da subida das receitas...

Este é o ponto: os impostos sobre o consumo, que servem de métrica para o próprio consumo, estão a subir. Muito. No primeiro trimestre era normal, uma vez que comparavam com um primeiro trimestre de 2009 em que a economia tinha congelado, por pavor dos agentes económicos. Mas nos meses seguintes já não foi assim.

Olhando para os resultados do grupo Sonae ou da Jerónimo, entrevê-se que o consumo de telemóveis e nos hipermercados não caiu, aumentou. Os dados de compra de automóveis idem, segundo valores oficiais das marcas. Os impostos são o espelho disso.

Nos primeiros seis meses do ano, as receitas de IVA subiram 16%. Consome-se mais. As receitas do imposto sobre o tabaco aumentaram 60%. Fuma-se mais. As receitas do imposto sobre veículos cresceram 21,3%. Conduz-se mais. Dos impostos com receitas mais volumosas, só um caiu. Adivinhe qual? O IRS. O rendimento.

Com este aumento do consumo, ou a economia está mais robusta, como diz o Governo, ou os portugueses andam a consumir para esquecer o que os espera.

Talvez seja preciso ouvir um psicólogo social. No início desta crise, o consumo arreou e a taxa de poupança aumentou, invertendo vagarosamente uma tendência insustentável de dívida. Por isso se disse que "os portugueses são sensatos". E agora, o que são? Ou são mais sábios que os economistas (hipótese a considerar...) ou andam sob encantamento dos políticos.

O dinheiro está a sair dos produtos de poupança. Em Junho, os portugueses levantaram 10 milhões por dia a mais do que investiram em fundos de investimento. Nos certificados de aforro há uma saída massiva desde o início do ano. Os novos depósitos bancários de famílias foram, em Maio, os mais baixos dos últimos quatro anos.

Para onde está a ir o dinheiro? Para consumo? Para o estrangeiro, nas contas oportunísticas que vão sendo abertas por bancos estrangeiros para ganhar com a ansiedade dos boatos? Para o colchão, só para o caso de...? A liquidez é tida como um indicador de pânico da economia. Será isso?

Não há crescimento, nem investimento. Depois dos desempregados, a crise está a chegar aos empregados, por redução do rendimento disponível. Menos dinheiro, mais impostos. E nós? Nós pimba: gastamos. Até quando? Até acabar. Ou o dinheiro ou a ilusão.

Acendamos uma velinha no santuário dos economistas, desejando que estejam todos errados. Se o pior tivesse passado...


PS: Hoje há Hora H com Ricardo Salgado. Acompanhe em directo em www.negocios.pt e leia a reportagem na edição impressa de amanhã.


psg@negocios.pt






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