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Helena Garrido Helenagarrido@negocios.pt 03 de Setembro de 2012 às 23:30

Os desafios de José Eduardo

Angola cumpriu mais uma etapa de uma transição que se adivinha difícil, porque estamos perante uma mudança de geração no poder e de um novo patamar de exigência na sociedade angolana.

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As eleições decorreram sem incidentes dignos de registo. O MPLA venceu e a UNITA, maior partido da oposição, reconhece a sua vitória. José Eduardo dos Santos foi re-legitimado como queria, com Manuel Vicente como número dois. A primeira fase do problema está resolvida. Faltam muitas outras que colocam a José Eduardo dos Santos um dos maiores desafios da sua vida de poder.

José Eduardo dos Santos é presidente há mais de três décadas. Chegou com 37 anos. Se cumprir todo o novo mandato terá exercido o poder durante 38 anos, mais do que a idade que tinha quando assumiu a presidência pela morte de Agostinho Neto. Hoje procura sair com segurança pessoal e patrimonial, como alguém dizia, para si, para os seus e para o país.

A dimensão da vitória nas eleições de sexta-feira, dia 31 de Agosto, invulgar para as democracias ocidentais do hemisfério norte, transmite, contudo, duas mensagens importantes. Primeiro, a vitória não foi tão esmagadora como a de anteriores actos eleitorais. Segundo, e bem mais importante, o resultado menos generoso obtido em Luanda, região onde o MPLA sempre teve grande influência, revela que as populações urbanas já estão a exigir mais do que o enriquecimento de alguns.

Como escrevia na sexta-feira passada, para o Negócios, o jornalista angolano Victor Silva, "a população está atenta e é cada vez mais exigente, não ficando indiferente a fenómenos como a corrupção e a distribuição desigual da riqueza". É na população urbana, mais informada, que se inicia a cultura da exigência, despertando para o combate das desigualdades que em tempos de guerra ou nas primeiras fases da paz parecem ser pouco importantes.

José Eduardo dos Santos tem gerido esta transição com grande inteligência. Uma inteligência que já tinha revelado quando fez a transição da sociedade de guerra que era Angola até 2002, para a sociedade civil que é hoje. Soube satisfazer os militares, mantendo os equilíbrios com os negócios que lhes proporcionou (e proporciona). Mais recentemente, soube satisfazer os que esperavam suceder-lhe e uma camada mais alargada da sociedade que poderia começar a revoltar-se com a sua marginalização da sociedade.

Os angolanos que conhecemos em Portugal são ricos, compram as melhores casas e as mais importantes empresas, vão às melhores lojas. Mas não é por aqui que se vai garantir um futuro sem rupturas para a sociedade angolana. Nem mesmo tentando controlar a informação.

Angola tem de entrar na fase da distribuição da riqueza, tem de espalhar por mais pessoas a prosperidade. E, nesse sentido, a regra de impor um parceiro angolano nos investimentos de estrangeiros, embora viole todas as recomendações da teoria económica, é uma forma de contribuir para essa propagação da iniciativa e, com ela, da prosperidade.

José Eduardo dos Santos tem o seu último desafio como presidente. Está entre a espada da nomenclatura e a parede da população urbana mais culta e exigente. Tem de sair do poder garantindo a sua segurança e a do país, satisfazendo os interesses da nomenclatura e da própria sociedade angolana. A sua sucessão tem de ser aceite por quem teve sonhos de o suceder - e, como em todas as sociedades, são muitos - e tem de começar a levar o país para um novo patamar de menos desigualdade e pobreza. É um caminho estreito e difícil. Para Angola e para os angolanos.


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