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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 01 de Outubro de 2008 às 13:00

Pare, escute e olhe

Se um comboio em alta velocidade está prestes a passar-lhe à frente, o pior que pode fazer é atravessar a linha férrea a correr desenfreadamente. Assim é também na crise global no sistema financeiro: pare, escute e olhe à sua volta. Verá que a única coisa de que se deve ter medo é do próprio medo.

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EUA: um porco com batom não deixa de ser um porco

A causa do problema é americana, a agonia que persiste também, e o ónus da solução assim é. As consequências são globais.

O Plano Paulson versão 2:0 que foi rejeitado era caro, de eficácia duvidosa e difícil de engolir pela opinião pública. Primeiro, porque estavam a ser dados incentivos perversos às empresas, assegurando que os riscos têm cobertura do Estado. Segundo, porque os grandes beneficiados do Plano eram os bancos que mais riscos tinham corrido, os que tinham mais activos tóxicos. Mas, sobretudo, ele era intolerável para a classe média americana, que conhece de ginjeira Henry Paulson e outros como ele, viu-os anos a fio como inventores dos sucessos que agora sucumbiram.

É preciso um Plano Paulson 3:0, porque qualquer plano é melhor que plano nenhum. Ainda esta semana, os congressistas deverão avaliar um novo plano, mas os acontecimentos recentes não permitem excluir um chumbo. "E que tal fazer um plano de jeito?", perguntava ontem Paul Krugman. Um plano de jeito é aquele que, mesmo custando muito dinheiro, não se enclausura num dogma ideológico e assume que é preciso entrar pelo capital dos bancos adentro. As autoridades americanas estão em negação, mas sempre foi assim, e sempre assim será: se uma instituição tem de ser salva, tem de ser nacionalizada sem equívocos. Mais tarde será ou não reprivatizada. É o que está a fazer a Europa.

A rejeição ao Plano Paulson foi um choque em todo o Planeta, excepto na Câmara dos Representantes. Mas o problema não é perceber que George W. Bush já não manda no seu partido. É aterrador ver que há uma crise financeira brutal num país sem liderança. Afinal, não é a Europa que voa como um Boeing sem piloto na cabina.

UE: ainda ninguém lhe atende o telefone, senhor Kissinger?

O casamento entre europeus sempre foi de conveniência, o amor nunca foi chamado para esta utopia. É por isso surpreendente ver como a UE está a reagir. Continua a não haver um homem-líder na Europa (Kissinger perguntava a quem deveria ligar quando quisesse falar com a Europa), mas porque os vários líderes nacionais estão a agir com rapidez, coesão e pragmatismo: não há equívoco ideológico, nacionaliza-se. E isso é melhor que todos os proteccionismos sub-reptícios, porque é claro. Mesmo quem discorda da intervenção concorda que os bancos na Europa caem por razões diferentes dos americanos: não criaram os activos tóxicos, compraram-nos porque tinham "rating" máximo; não passaram a insolventes, "secaram" sem crédito no sistema.

As intervenções nacionais mostram homogeneidade e o salvamento do Fortis e do Dexia, envolvendo vários países, revela entendimento inter-governamental. A dificuldade uniu os europeus. É o que acontece nos casamentos por amor.

Portugal: todos diferentes, todos iguais

Ouçam as palavras de Sócrates: "As poupanças dos portugueses estão garantidas. (...) O Estado existe para ajudar as pessoas nas alturas difíceis". Não é um acto de fé, é um compromisso. O mesmo que outros líderes europeus fizeram: sossegaram os depositantes e pressionaram os EUA.

Na Europa, nenhum banco relevante será deixado cair. Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Islândia e Luxemburgo já salvaram bancos. Assim será também em Portugal, se necessário. Não porque haja bancos aflitos, mas porque a falta de liquidez é, em si mesma, uma aflição: será preciso aumentar capital, vender activos, reduzir custos, mas o Estado amparará outros golpes. Como dizia ontem a Helena Garrido, "os nossos depósitos estão seguros na sua totalidade e não apenas nos 25 mil euros garantidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos."

Você: a liquidez mede o pânico

Quanto mais notas e moedas se tem no colchão, maior é o pânico do dono da cama, dizia Keynes numa versão mais séria e rigorosa. Ora, como mostram as perguntas dos leitores do Negócios, a ansiedade é enorme e o instinto de pôr dinheiro a salvo é persistente.

Como fica demonstrado, só há que ter medo do medo. O paradoxo é que não controlamos o medo dos outros: uma corrida aos depósitos afunda qualquer banco do mundo. A diferença é que os europeus estenderam a rede debaixo do trapézio.

O comboio aproxima-se a alta velocidade e vai obrigar todas as economias a crescer menos (uma recessão mundial é um cenário muito possível). Mas a taxa de sobrevivência será alta. Capitalistas de todo o mundo, uni-vos...
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