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Poupar sem ser por medo

No passado, poupava-se para comprar o carro ou algum equipamento doméstico um pouco mais caro. Poupava-se para fazer as férias ou ainda para uns eventuais dias mais difíceis.

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No passado, poupava-se para comprar o carro ou algum equipamento doméstico um pouco mais caro. Poupava-se para fazer as férias ou ainda para uns eventuais dias mais difíceis. A desregulamentação financeira e a teoria de que as pessoas tomam decisões baseadas no rendimento ao longo da vida conjugaram-se para criar a ilusão que não é preciso poupar para consumir no futuro ou prevenir dias menos bons. Criaram a ideia falsa de que é possível consumir o que nos apetece hoje e pagar amanhã. E nasceu a economia da dívida.


O crédito só era possível porque havia quem estava disposto a sacrificar o consumo presente - o aforrador - e quem queria sacrificar o consumo futuro - o que pedia financiamento. Teoricamente, quem sacrificava o consumo futuro na realidade não o fazia. O seu consumo presente com crédito criaria no futuro mais rendimento porque era investimento.


Quando a desregulamentação expandiu as fronteiras do crédito para o puro sacrifício do consumo futuro, sem que o cidadão comum se apercebesse que era isso que estava a fazer, começou a nascer o problema que hoje vivemos. Quando o crédito serve para consumo que não garante rendimentos crescentes no futuro há um momento em que descobrimos que é impossível manter o mesmo nível de despesa. Foi isso que nos aconteceu. Não apenas a nós, mas também às famílias da potência imperial norte-americana.


A economia da dívida em que estivemos a viver resiste em corrigir-se.


Claro que ninguém precisa de regressar ao tempo em que se precisava de poupar cada tostão necessário para comprar o carro ou o electrodoméstico ou as férias. Actualmente estamos a pagar aquilo que consumimos por conta do futuro que agora chegou. Esperávamos ter neste futuro que é hoje mais rendimento que nos permitiria manter o mesmo nível de consumo. Mas não foi isso que aconteceu. A economia da dívida só é duradoura, sem queda do nível de consumo, se se confirmar o esperado rendimento crescente futuro. Não foi isso que aconteceu. E nunca se pode dar como adquirido que o futuro oferece sempre e duradouramente mais rendimento que o passado. Pelo contrário.


Poupar como se poupava no passado não faz sentido. Hoje temos, apesar de tudo, mais segurança em relação ao futuro. E a sofisticação financeira, se deu origem à crise, trouxe também uma inovação que, bem controlada, significa uma nova fronteira de possibilidades de crédito sem que se ameace o futuro.


Poupar tão pouco como poupávamos não é possível. Poupar tanto como precisávamos de poupar antes do novo mundo financeiro não é preciso. Mas temos de ficar na poupança entre aquilo que fazíamos em tempos já imemoriais e o que andamos a fazer nos anos mais recentes. Poupar apenas para adiar consumos e não por medo.

 


helenagarrido@negocios.pt

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