Celso  Filipe
Celso Filipe 02 de janeiro de 2018 às 23:00

Reinvenção e invenções

A mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa foi curta e dicotómica. O ano de 2017 correu bem do ponto de vista económico (e não só) e foi terrível devido aos incêndios que vitimaram mais de 100 pessoas. O Presidente da República massajou o ego nacional e avisou que tragédias como as de Pedrógão Grande não se podem repetir.

Disse isto e não disse mais. Ou melhor, verbalizou uma palavra que rapidamente se transformou na chave para abrir o cofre do pensamento presidencial. Afinal, como teorizou Ferdinand Saussure, o pai da linguística enquanto ciência, a fala, ao contrário da língua, por emanar de actos individuais, assume uma natureza múltipla e imprevisível.

Marcelo Rebelo de Sousa desejou que 2018 seja um ano da "reinvenção" e logo começaram as invenções sobre o real significado (neste caso significante) da palavra dita. O Diário de Notícias, por exemplo, concluiu que o ano de 2017, segundo o Presidente, teve "um saldo negativo". Por sua vez, o Público garantiu que o "discurso não foi inócuo para o Governo" e o i viu um recado para o primeiro-ministro, António Costa, consubstanciado nas palavras de Marcelo de que é preciso "ter a certeza de que, nos momento críticos, as missões essenciais do Estado não falham nem se isentam de responsabilidades".

O PS ouviu a palavra reinvenção como um "incentivo a novas políticas" ligadas à Protecção Civil e garante que o discurso do Presidente espelha "reconhecimento pelo trabalho feito" por este Governo. Coisa diferente da escutada pelo PSD. "Sobrecarregar os portugueses com mais impostos é a única estratégia deste Governo socialista. Por isso se torna tão urgente o apelo do Presidente da República para a reinvenção do país, para que os erros de 2017 não se repitam", declarou o secretário-geral do PSD, José Matos Rosa.

Estas invenções (no sentido de criarem algo de novo, neste caso uma narrativa dominante) foram a única maneira que os diferentes agentes encontraram para tirar "recados" de um discurso presidencial que foi pífio. A expressão "reinvenção da confiança" fez magia por este desiderato. Contrariando as expectativas, Marcelo Rebelo de Sousa produziu uma mensagem de Ano Novo óbvia e baseada em factos verificáveis. Coisa pouca que aguçou a necessidade de inventar a partir da reinvenção, legitimando o pensamento de Roland Barthes, que escreveu em "A Câmara Clara": "A sociedade (...) desconfia do sentido puro: ela quer sentido, mas, ao mesmo tempo, quer que este sentido seja cercado de um ruído – como se diz em cibernética – que o faça menos agudo."