Celso  Filipe
Celso Filipe 22 de fevereiro de 2018 às 23:00

Rio forte, Rio fraco

Fernando Negrão foi eleito presidente do grupo parlamentar do PSD com 39% dos votos. Trata-se de um mau resultado comprovado por esta singela constatação: Negrão obteve quase tantos votos a favor (35) como os brancos (32).

A pergunta que se segue é elementar e deriva da natureza das coisas: este resultado e a frágil liderança da bancada parlamentar do PSD poderão colocar em causa a estratégia de Rui Rio enquanto líder do partido?

A resposta é sim. Pela razão mais elementar de todas, a de que representa, inequivocamente, um sinal de fragilidade interna que poderá afectar a forma como tenciona posicionar o partido e conquistar as simpatias do eleitorado numa conjuntura em que este dá o benefício da dúvida ao PS.

Rui Rio tem conseguido movimentar-se com à-vontade no exterior do PSD, as reuniões com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa são um sinal disso, mas enfrenta problemas no interior do partido. Das escolhas polémicas de Elina Fraga e Salvador Malheiro para seus vices-presidentes, à opção por Fernando Negrão para presidir à bancada parlamentar, sem esquecer a picardia com o ex-detentor do lugar, Hugo Soares. E ainda Luís Montenegro, que vai andar por aí.

A ferida fica em carne viva quando o próprio Fernando Negrão abre fissuras entre os deputados. "Há um problema, não de natureza política, mas de natureza ética, há um problema neste grupo parlamentar, porque houve pessoas – eventualmente duas, podem ser mais – que aceitaram integrar a lista e depois terão votado em branco", disse Negrão, após conhecer os resultados da votação.

Naturalmente, na Assembleia da República, o Governo e o PS irão aproveitar-se do clima de guerra fria no grupo parlamentar do PSD para descredibilizar a liderança de Rui Rio. E o CDS/PP, embora de forma passiva, também poderá tirar dividendos da situação, reafirmando Assunção Cristas como o rosto principal da oposição à geringonça.

Neste quadro, a incógnita reside em saber de que forma Rui Rio se conseguirá afirmar como um líder forte estando rodeado de pessoas que apresentam vulnerabilidades políticas e tendo um líder parlamentar com evidentes carências de afirmação. Rui Rio tem pela frente uma tarefa homérica, em que porventura terá de se socorrer de um ensinamento do próprio Homero para ser bem-sucedido: "Sabedoria para resolver e paciência para fazer." 
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